Rodovias precárias: um buraco no bolso do brasileiro

By | 31/05/2015

No Brasil, os contribuintes trabalham até 31 de maio – o equivalente a 151 dias – somente para pagar os impostos exigidos pelos governos municipal, estadual e federal, segundo dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). A elevada carga tributária do País, uma das maiores do mundo, impacta na composição do preço final de bens e serviços. Não fosse a alta incidência dos tributos sobre os produtos, o poder de compra dos consumidores seria maior.

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Esse pesado fardo, entretanto, não é devidamente compensado com retornos sociais em áreas como educação, saúde e segurança. No setor de transportes, os brasileiros ainda suportam os prejuízos econômicos causados por uma infraestrutura precária que dificulta a logística nacional.

Em nossas rodovias, por onde circulam mais de 60% das cargas, o problema afeta toda a cadeia produtiva e corrói os salários dos trabalhadores. Isso porque a qualidade das estradas também determina os preços das mercadorias, influenciando nos custos operacionais das transportadoras e pressionando os valores cobrados pelos fretes. O coordenador do Núcleo de Logística, Supply Chain e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral (FDC), Paulo Resende, destaca que o desequilíbrio na matriz brasileira de transportes causa ao setor produtivo uma grande dependência do sistema rodoviário, o que não é saudável para a economia do Brasil.

"O pior de tudo é que dependemos de estradas ruins. Atualmente, a malha rodoviária brasileira é calculada em 1,6 milhão de quilômetros, considerando as vias federais, estaduais e municipais. Mas apenas 14% (224 mil quilômetros) são asfaltados", aponta.

Ele lembra que o transporte de longa distância é o fator mais representativo na estrutura dos custos logísticos das empresas nacionais (combustível, pneus, manutenção, etc.), representando quase 44% do total.

"O caminhão que hoje roda num trecho de difícil trafegabilidade tem, em média, um acréscimo de 30% nos gastos com logística. Ou seja, o consumidor de Fortaleza paga 30% a mais pelos produtos que vêm de São Paulo. Um quilo de arroz que é vendido por R$ 2 na capital paulista chega aos supermercados da capital cearense a R$ 2,60", exemplifica Resende.

Custos elevados

De acordo com a Confederação Nacional do Transporte (CNT), não há incremento nos custos das transportadoras quando o pavimento das estradas está em ótima condição. Nas vias classificadas como boas, regulares e ruins, os aumentos são de 18,8%, 41% e 65,6%, respectivamente. Por sua vez, as que possuem asfalto péssimo elevam o valor em 91,5%.

Assim, se o gasto operacional de um caminhão fosse de R$ 100 ao percorrer determinada quilometragem numa estrada ótima, o valor seria de R$ 191,50 para fazer o mesmo trajeto numa rodovia péssima.

Regiões

A situação é mais crítica nas regiões Norte e Centro-Oeste, que têm 37,6% e 27,5% de acréscimo no custo médio, respectivamente. O Nordeste aparece na terceira posição, com 26,2%. O aumento é de 25,7% no Sul e de 20,8% no Sudeste, índices abaixo da média nacional (26%).

Investimentos

Conforme o coordenador de Pesquisa e Estatística da CNT, Jefferson Cristiano, os investimentos públicos destinados ao sistema rodoviário não têm sido suficientes para modernizar a infraestrutura e acompanhar o crescimento da frota de veículos. Para agravar o problema, o governo federal não consegue aplicar os recursos previstos para o setor. O atual momento de ajuste fiscal, em que foi anunciado um corte de quase R$ 70 bilhões no Orçamento deste ano, também não favorece novas obras.

"Em 2014, dos R$ 12 bilhões autorizados, apenas R$ 9 bilhões foram efetivamente aplicados. Isso significa 25% a menos. Até abril de 2015, foi investido R$ 1,9 bilhão, valor 18% abaixo do total aplicado em igual período do ano passado (R$ 2 bilhões). Mesmo não sendo suficiente, a verba existe, mas o governo não consegue aproveitá-la devidamente. Falta planejamento, os projetos não são bem elaborados", analisa.

O coordenador diz que, segundo o Plano CNT de Transporte e Logística 2014, seriam necessários quase R$ 294 bilhões para modernizar a malha viária brasileira, adequando, duplicando, recuperando e construindo estradas. "Logo, se consideramos os R$ 9 bilhões aplicados no ano passado, precisaríamos de 33 anos para resolver os problemas atuais", salienta, informando ainda que 87,1% das pistas são simples de mão dupla, 49,7% possuem curvas perigosas sem placas de advertência e 39,9% não têm acostamento.

Caminho

Para Jefferson, os problemas ligados à infraestrutura logística do País chegaram a um patamar que o único caminho para modernizar a área de transportes é ampliar as parcerias com a iniciativa privada. Nesse contexto, ele cita a importância do programa de concessões do governo federal, cuja segunda fase deverá ser lançada no próximo dia 9 de junho. "O transporte é o meio de sobrevivência da cadeia produtiva", ressalta o coordenador.

Paulo Resende acrescenta dizendo que, diante da queda na capacidade de investimento, o poder público não tem alternativa senão depender dos recursos do setor privado para reduzir o "custo Brasil". "Sozinho, o governo não pode executar as mudanças necessárias, principalmente em um momento de cortes no Orçamento, com uma situação fiscal de alto risco", declara.

Raone Saraiva
Repórter

Negócios