Mesmo com maior volume de chuvas, efeito esponja dificulta recuperação do Cantareira

By | 19/02/2015
Sistema Cantareira; Nazaré Paulista (Foto: Reuters)

Mesmo com o fevereiro mais chuvoso em 9 anos, o Sistema Cantareira tem recebido um volume de água 46% abaixo da média histórica para o mês. Boletim da Agência Nacional de Águas (ANA) mostra que a entrada de água nos reservatórios ainda está 30,5 mil litros por segundo menor do que o esperado, resultado do "efeito esponja" provocado pelo solo seco. Essa diferença corresponde ao dobro do que a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tem retirado para abastecer cerca de 6,5 milhões de pessoas na região metropolitana.

Até a quarta-feira (18/02), o manancial registrou uma vazão afluente média (água que entra) de 34,9 mil litros por segundo, volume 310% maior do que o registrado no mês passado e em fevereiro de 2014, quando o índice foi de apenas 8,5 mil litros por segundo em cada um. Em tempos de seca extrema nos reservatórios, o dado parece animador, mas ainda está longe da normalidade do chamado ciclo hidrológico do manancial. A vazão esperada para fevereiro é de 65,4 mil litros por segundo, a mais alta do ano.
 

O nível do maior sistema de São Paulo chegou nesta quinta-feira a 9,5% de capacidade, incluindo duas cotas do volume morto, completando duas semanas de alta. Nas últimas 24 horas, a pluviometria conferida na região do Cantareira não foi alta, de 3 milímetros. Considerando os outros dias do mês, contudo, o volume acumulado, de 260 milímetros, já é cerca 30,6% maior do que a média histórica de fevereiro, de 199,1 mm.

A última vez em que o Cantareira registrou queda foi no dia 1º de fevereiro, quando desceu de 5,1% para 5%. Comparado ao primeiro dia do ano, quando estava com 7,2%, o volume atual de água represada é 2,3 pontos porcentuais superior e está equiparado ao do dia 23 de novembro, quando também estava com 9,5%.

"O dado positivo é que as chuvas voltaram, mas não adianta ficar muito empolgado porque, em relação à vazão afluente, ainda estamos muito abaixo da média. O que podemos dizer, desde que tenhamos essa sorte em março e abril, é que há chance de nos livrarmos do rodízio radical e de não precisarmos usar o terceiro volume morto. Mesmo assim, começaríamos 2016 pior do que no ano passado", explica o engenheiro civil José Roberto Kachel, especialista em hidrologia.

Corte
As chuvas, contudo, não teriam o menor impacto não fosse a redução de 66% do volume de água retirado do Cantareira pela Sabesp para abastecer a Grande São Paulo, além de mais 5,5 milhões de pessoas nas regiões de Campinas e Piracicaba. Há um ano, a captação era de 32,6 mil litros por segundo, e, agora, caiu para 11 mil litros por segundo. Com isso, o manancial terá superávit pela primeira vez em 22 meses.

O resultado, contudo, tem sido obtido mediante uma redução drástica da pressão da água e fechamento de 40% da rede, provocando longos cortes no abastecimento, como na casa de Maria Aparecida Terra, de 40 anos, no Jaçanã, zona norte da capital, onde a água não chega desde domingo. "Tem idosos, doentes e crianças no local e estamos preocupadíssimos, pois nossa pouca reserva está quase zerada", disse. A Sabesp afirma que está reavaliando as áreas de redução da pressão.

Outros mananciais
O nível dos outros cinco principais mananciais, responsáveis por abastecer a capital e Grande São Paulo, também registrou aumento no volume acumulado de água. Em termos proporcionais o Sistema Rio Grande foi quem teve o maior aumento: 1 ponto porcentual. O reservatório opera nesta quinta com 83,9% da capacidade, contra 82,9% na quarta.

O Sistema Alto Tietê também completou duas semanas de alta e subiu 0,9 ponto porcentual. O reservatório está com 17,2%, número que leva em conta 39,4 bilhões de litros do volume morto. No dia anterior, o índice era de 16,3%. Mesmo aumento teve o Alto Cotia, que saltou de 35,3% para 36,2%.

O Sistema Guarapiranga subiu 0,5 ponto porcentual, após ter chovido 7,8 mm sobre a região. O reservatório está com 56,8% da capacidade, ante 56,3% no dia anterior. Já o Rio Claro cresceu 0,2 e registra 34,8% de volume de água.

Revista Época Negócios