Mercado projeta ‘uniões’ em celulose

By | 27/01/2015
Floresta Árvore Crédito de carbono Meio ambiente Celulose Sustentabilidade (Foto: Shutterstock)

O movimento de consolidação no mercado brasileiro de celulose é um caminho sem volta e deverá acontecer em um futuro não muito distante, segundo empresários, analistas e executivos ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo. O mercado olha com especial atenção para o destino da Eldorado Celulose, controlada pela holding J&F – dona da Friboi e da Seara -, como um possível alvo nesse processo.

Fontes de mercado afirmam que tanto Fibria quanto Suzano chegaram a olhar esse ativo, mas as negociações não foram adiante. A Fibria é apontada como "compradora natural" por ter uma unidade em Três Lagoas (MS), onde também está localizada a Eldorado. A Suzano diz que não há planos imediatos para participar de movimento de consolidação no Brasil. A Fibria não quis dar entrevista.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente da Eldorado Celulose, José Carlos Grubisich, diz que nunca houve qualquer conversa para fusão. O presidente da Eldorado mantém o discurso de que a companhia tem como projeto mais do que dobrar sua capacidade produtiva, atualmente em 1,7 milhão de toneladas por ano. O executivo calcula os custos da nova unidade em R$ 10 bilhões e reforça a projeção de colocá-la em operação em 2018.
 

Para isso, Grubisich admite que terá de correr contra o tempo: para cumprir o prazo, precisará estar com a estrutura de financiamento pronta antes do fim de 2015. Na atual estrutura societária da Eldorado, a J&F tem 80% do capital. Os dois fundos de pensão (Funcef, da Caixa, e Petros, da Petrobrás) somam cerca de 18%, e o restante – pouco menos de 2% – pertence a Grubisich. Fontes de mercado afirmam que os fundos de pensão não estão dispostos a colocar mais capital na Eldorado. No ano passado, até setembro, a holding J&F teve de injetar R$ 1,1 bilhão de capital na companhia. A empresa diz que está buscando capital privado para colocar sua segunda unidade em pé.

De acordo com fontes, uma consolidação envolvendo a Eldorado poderá penalizar futuros parceiros, uma vez que a companhia está altamente endividada. A expansão do mercado de celulose, para outra fonte do setor, é uma questão de confiança na viabilidade dos projetos. "Dinheiro no mercado com certeza há. É só uma questão de as empresas conseguirem apresentar as garantias aos bancos. A Eldorado, sozinha, não tem como fazer isso. Mas a J&F tem."

Novas fábricas da CMPC e Klabin
Até pouco tempo atrás, novos projetos de produção de celulose eram vistos como uma ameaça. A conta era simples: oferta maior que demanda derrubaria os preços da commodity. Hoje, o setor encara com certa tranquilidade a entrada em operação de duas novas fábricas. Isso porque, segundo dados de mercado, a demanda global pela celulose produzida no País tem crescido cerca de 5% ao ano.
 

Fábrica da Fibria (Foto: Divulgação)

Em maio, entra em operação a expansão da Celulose Riograndense, em Guaíba (RS), com capacidade extra de 1,3 milhão de toneladas, fruto de investimentos de R$ 5 bilhões. A unidade pertencia à Fibria e foi adquirida pela chilena CMPC em 2012. Embora a fábrica gaúcha seja o único ativo da CMPC no Brasil, o presidente da filial brasileira, Walter Lidio Nunes, lembra que o grupo tem tradição em celulose no Chile, onde tem quatro unidades. "Provavelmente a nova capacidade deverá atender clientes das fábricas do Chile", explica.

A expansão da Celulose Riograndense deverá ser a única adição ao parque fabril de celulose global em 2015 e não deve ter grande efeito nos preços da commodity, segundo Carlos Farinha, vice-presidente da Pöyry do Brasil, empresa que acompanha o setor. "O mercado vai absorver isso."

Já a papeleira Klabin deverá inaugurar no início de 2016 sua primeira fábrica de celulose. O investimento será de R$ 5,8 bilhões na parte industrial. A unidade ficará em Ortigueira (PR) e terá capacidade de 1,5 milhão de toneladas por ano, dos quais 1,1 milhão de celulose de fibra curta (eucalipto) e 400 mil toneladas de fibra longa (pínus), parte convertida em "fluff" (para produção de fraldas e absorventes). O mercado não vê a Klabin como ameaça, pois a empresa usará parte da produção para consumo próprio. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Suzano arruma a casa
Enquanto boa parte da indústria terá um ano extremamente desafiador, a expectativa das fabricantes de celulose é outra. Altamente exportador, o setor é beneficiado pela alta do dólar. De quebra, os preços do produto têm se mostrado resilientes ao derretimento das commodities, que corroeu a cotação do petróleo e do minério de ferro. Nesse cenário, a Suzano, vice-líder do setor no país, atrás da Fibria, deverá começar a colher os frutos de uma intensa reestruturação empreendida nos últimos dois anos. É esse trabalho, feito aos poucos, que vai permitir à empresa ter um papel importante na esperada consolidação do setor no país.
 

Fábrica da Suzano Papel e Celulose (Foto: Divulgação)

O foco da empresa ainda está concentrado na redução da alta dívida, que chegou à marca de 5,2 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) em dezembro de 2013. Agora, a relação foi reduzida para 4,5 vezes, mas as obrigações ainda são altas e somavam R$ 9,7 bilhões no terceiro trimestre de 2014. A meta da Suzano é alcançar um múltiplo de 2,5 a 3 vezes o Ebitda entre o fim de 2015 e o início do ano que vem. Só assim, segundo Schalka, que a empresa terá chance de chegar como mandante à onda de fusões e aquisições projetada para o setor – e não como negócio a ser comprado.

Ao se esforçar para reduzir o endividamento, a Suzano trilha o caminho que a Fibria – resultado da união entre VCP e Aracruz – percorreu por mais de quatro anos. A líder do setor reduziu o peso de sua dívida a tal ponto que reconquistou, em 2014, o grau de investimento das agências de risco de crédito.

A resistência em anunciar novos projetos antes da redução do endividamento mudou a visão do mercado financeiro sobre a Suzano. As ações da empresa subiram 13,67% nos últimos 12 meses, mas cerca de 80% dos analistas que acompanham o papel da empresa preveem espaço para mais ganhos.

Revista Época Negócios