Líderes marcam com sobreviventes os 70 anos da libertação de Auschwitz

By | 27/01/2015

Com novos sinais de antissemitismo na Europa como pano de fundo, sobreviventes do Holocausto e chefes de Estado se reuniram nesta terça-feira (27) em Auschwitz para proclamar um novo "Nunca mais!", 70 anos depois da libertação do campo de extermínio nazista.

As primeiras cerimônias começaram pela manhã, no imenso campo coberto com uma espessa camada de neve. Ex-prisioneiros depositaram flores e velas diante do chamado muro da morte, onde houve muitas execuções antes que os nazistas instalassem as câmaras de gás.

Na véspera, os sobreviventes, em sua maioria nonagenários, que conseguiram evitar a morte quando cerca de 1,1 milhão de pessoas –entre elas 1 milhão de judeus– foram exterminadas, pediram que o mundo faça todo o possível para evitar que o horror do Holocausto se reproduza.

Vinte dias depois dos mortíferos atentados de jihadistas franceses contra o jornal satírico "Charlie Hebdo" e contra um mercado kosher, o presidente François Hollande, que nesta terça visitou o Memorial da Shoah antes de pegar o avião rumo à Polônia, anunciou que reforçará as sanções contra o racismo e o antissemitismo em seu país.

Alguns dos sobreviventes que se dirigem a Auschwitz enxergam um vínculo entre os atentados da França e os conflitos no Oriente Médio.

"O que ocorreu na França está vinculado ao que acontece no Oriente Médio, e gostaria muito que este último problema fosse resolvido, porque penso que isso influencia o antissemitismo na Europa", declarou à AFP Celina Biniaz, uma octogenária proveniente da Califórnia (Estados Unidos).

O presidente alemão, Joachim Gauck, declarou, por sua vez, que "não há identidade alemã sem Auschwitz", insistindo que seu país tem uma grande responsabilidade para "proteger os direitos de cada ser humano".

"Aqui na Alemanha, caminhamos todos os dias diante de casas de judeus deportados; aqui na Alemanha, onde sua aniquilação foi planejada e organizada. Aqui, o horror passado está mais perto e a responsabilidade é muito maior e imperativa que em outros lugares", afirmou.

Banimento

O aumento do antissemitismo foi mencionado na segunda (26) pelo cineasta Steven Spielberg, autor, entre outras obras, de "A Lista de Schindler", e pai da Fundação da Shoah, que registrou em imagens os testemunhos de 53.000 sobreviventes do Holocausto.

Spielberg, que discursou em Cracóvia junto ao presidente do Congresso Mundial Judeu, Ronald S. Lauder, denunciou "os esforços crescentes para banir os judeus da Europa".

O tom foi o mesmo na segunda em Praga, onde o Congresso Judeu Europeu realizou uma cerimônia paralela com o fórum "Let My People Live" (Deixem meu povo viver). "A comunidade judaica da Europa está próxima de um novo êxodo", afirmou o presidente da organização, Moshe Kantor.

Além de Hollande, compareceram ao ato em Auschwitz os presidentes alemão, Joachim Gauck, e ucraniano, Petro Poroshenko, o secretário americano do Tesouro, Jack Lew, e o chefe da administração presidencial russa, Serguei Ivanov, já que Vladimir Putin, que compareceu em 2005, não foi porque, segundo Moscou, não recebeu convite oficial.

Todos participaram da cerimônia principal na tarde desta terça em frente ao memorial de Birkenau, local de extermínio.

Orações

A cerimônia principal ocorreu sob uma grande tenda instalada na entrada do campo de Auschwitz II -Birkenau. Antigos prisioneiros, assim como um representante dos "Pilares da Lembrança" –doadores generosos do museu– pronunciaram breves discursos. Depois foi ouvido o som do shofar, um chifre utilizado em rituais israelenses, e orações judaicas pelos mortos.

Os participantes se aproximaram a pé do monumento às vítimas do Birkenau, a menos de um quilômetro de distância, para depositar flores e acender velas.

No início da cerimônia de libertação do campo de extermínio nazista, o presidente polonês, Bronislaw Komorowski, expressou seu respeito e agradecimento aos soldados soviéticos que libertaram Auschwitz.

Mas, no mesmo discurso, Komorowski pareceu colocar no mesmo nível os "totalitarismos nazista e soviético", ao recordar o extermínio em Katyn de elites polonesas pelos serviços especiais de Stalin.

Na semana passada, a Rússia acusou a Polônia de "histeria antirrussa", depois que o ministro polonês das Relações Exteriores declarou que Auschwitz-Birkenau foi libertado pelos ucranianos, e não pelo Exército Vermelho da então União Soviética.

No fim de dezembro, a Federação de Comunidades Judaicas da República Tcheca anunciou que se opunha a uma possível visita do presidente russo, convidado por seu colega tcheco, Milos Zeman.

A federação afirmou, entre outras coisas, que o regime do presidente Putin "não respeita os acordos internacionais" e "deu mostras de agressividade no exterior", enquanto o Ocidente acusa a Rússia de apoiar militarmente os rebeldes pró-russos no leste da Ucrânia, algo que Moscou desmente.

Ao presidir, em Moscou, um ato pelo 70º aniversário da libertação de Auschwitz pelas tropas soviéticas, o presidente russo criticou nesta terça o que chamou de "tentativa de reescrever a história".

"Qualquer tentativa de silenciar acontecimentos, distorcer ou reescrever a história é inaceitável e imoral", declarou no Museu Judeu de Moscou.

Obama adverte  contra o ressurgimento do antissemitismo

O presidente dos EUA, Barack Obama, marcou o 70º aniversário da libertação de Auschwitz advertindo contra o ressurgimento do antissemitismo e exortando o mundo a fazer com que um genocídio como este não aconteça "nunca mais".

"Os recentes ataques terroristas em Paris servem como um lembrete doloroso de nossa obrigação de denunciar e combater o crescente antissemitismo em todas as suas formas, seja através da negação ou banalização do Holocausto", disse Obama em um comunicado.

"Hoje estamos juntos e comprometidos com as milhões de almas assassinadas e todos os sobreviventes; que isso nunca se repita", disse.

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