Indústria cearense já reduz uso de água

By | 28/01/2015

Diante da previsão de mais um ano de seca no Estado, industriais cearenses já estão cientes de que economizar água em 2015 será indispensável para minimizar os impactos sobre os processos produtivos. Para sobreviver a mais um ano de estiagem, diversas empresas de médio e grande porte já começaram a adotar medidas para reduzir o consumo hídrico.

A informação é do presidente da Associação das Empresas dos Distritos Industriais do Ceará (Aedi), Adriano Sampaio Borges. Para ele, é fundamental que todas as fábricas procurem alternativas para utilizar menos água. "Primeiro, é preciso priorizar a economia em todos os setores da indústria. Depois, otimizar os processos para reduzir a quantidade de água utilizada também é imprescindível. Por último, criar mecanismos para reutilizar o máximo possível do recurso hídrico também é necessário", afirma.

Segundo Adriano, além dessas atitudes, existem industriais que perfuram poços nos terrenos das próprias empresas, principalmente as que estão ligadas a setores como o de bebidas e de soro fisiológico, por exemplo. Há também grupos de empresários que se juntam para captar água em terrenos externos, por meio de contrato.

"Nessas empresas, a água é matéria prima básica e, geralmente, não há como reutilizá-la. A água que, antes iria para irrigar o jardim da empresa, agora está sendo utilizada na produção", enfatiza

Apesar do prognóstico da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) apontando para o quarto ano seguido de estiagem, Sampaio acredita que o Estado está preparado para enfrentar o problema, considerando as obras feitas pelos governos dos últimos 25 anos para armazenar e distribuir água. "Diferentemente de São Paulo, que sempre teve água em abundância e agora enfrenta uma grande crise hídrica, o Ceará vem se preparando para não sentir tanto os impactos da falta de chuva. Há ainda muito a ser feito para ficarmos numa situação confortável, mas estamos caminhando", diz.

De acordo com ele, a indústria cearense está atenta a medidas que focam na economia de água para evitar uma possível paralisação dos processos produtivos, o que acarretaria o fechamento de empresas e, consequentemente, desemprego.

"Acho que, se houver desemprego na indústria cearense em 2015, será muito mais em função do arrocho fiscal do que pela possível falta d’água ou energia", acrescenta Adriano Borges. Conforme informa, existem em torno de 85 indústrias na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Em todo o Ceará, diz, são cerca de 5.500.

Envolvimento

O presidente do Conselho Temático do Agronegócio da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Bessa Júnior, destaca o plano de ações que está sendo desenhado pelo governo estadual para minimizar os efeitos da seca.

Por outro lado, fala que os empresários precisam, mais do que nunca, usar a criatividade para reduzir drasticamente o consumo de água. "Toda a sociedade precisa contribuir com essa causa. A indústria já vem trabalhando essa criatividade e buscando novas alternativas", fala.

Assim como o presidente da Aedi, Bessa acredita que, se cada qual fizer sua parte, há segurança hídrica até o fim deste ano, por meio do açudes Orós e Castanhão.

"Com a previsão de mais seca, a obra de transposição do Rio São Francisco se torna cada vez mais urgente", finaliza.

Conta repassada à tarifa será menor

Brasília. O diretor da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Tiago Correia, disse ontem (27) que a conta bilionária do setor elétrico deste ano – que será repassada por meio de reajuste extraordinário para a maioria dos consumidores – será "significativamente" menor que o previsto. De acordo com cálculos preliminares feitos pela própria agência, o consumidor teria de custear R$ 23 bilhões, neste ano, para cobrir os gastos energéticos do País, que incluem os programas sociais, como subsídios para baixa renda e o programa Luz para Todos.

O valor, muito superior ao de anos anteriores, desconsidera qualquer ajuda do Tesouro, que já anunciou não fazer aportes para o fundo do setor neste ano. A redução do valor, segundo o diretor, se deve ao novo cálculo feito para essas despesas, que foi capaz tanto de aumentar as receitas quanto de diminuir as despesas. "Os números divulgados, da ordem de R$ 23 bilhões, não se materializaram. Serão significativamente menores", disse.

Motivos

Segundo explicou o diretor, o ajuste das contas incluiu os efeitos da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre o diesel. Deixando essa previsão maior. Mas, ao mesmo tempo, as estimativas de gastos com as térmicas estavam infladas porque não consideravam que, parte do custo dessa geração já havia sido incluída nas tarifas dos consumidores, nos reajustes aprovados de outubro a novembro. "As estimativas de geração termelétrica tinham sido feitas em outubro. Nós pudemos revisitar as contas e esse valor caiu. Compensando com folga o aumento da Cide", diz.

"O valor do desconto que já tem cobertura tarifária era maior do que já tinha sido estimado". Esse pagamento antecipado pelo custo térmico, segundo ele, afetou principalmente os consumidores da região Norte do País.

Outro responsável pela redução dos custos do setor elétrico neste ano seria a redução dos pagamentos com indenizações. Elas são devidas desde que o governo anunciou, em 2012, antecipar a renovação das concessões do setor. A moeda de troca usada à época eram justamente essas indenizações, pelos investimentos ainda não amortizados.

Aneel adia para 31 de março pagamento de distribuidoras

Brasília. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) decidiu adiar, pela segunda vez, a data do pagamento bilionário que as distribuidoras de energia devem fazer para as geradoras. A agência também incluiu em sua decisão o adiamento do pagamento previsto para nove de fevereiro. Ambos agora estão previstos para ocorrer até 31 de março. Somados os dois meses, a conta em aberto está estimada, em aproximadamente, R$ 2,6 bilhões. Originalmente, o pagamento de janeiro venceu no último dia 13 e é de R$ 1,6 bilhão. Esse montante corresponde a venda extra de energia feita em novembro do ano passado.

Essa conta, extraordinária, está relacionada com a necessidade das distribuidoras em contratar mais energia para conseguir atender a demanda de seus consumidores em 2014.

O valor alto é um dos reflexos do impacto da seca sobre o sistema elétrico, que não pode recuperar o nível dos reservatórios das hidrelétricas, mesmo no período úmido.

Assim, a energia passou a custar mais caro, devido o número de usinas térmicas que passaram a ser usadas. A conta de fevereiro, também adiada, corresponde à compra de energia feita pelas distribuidoras em dezembro, estimada em R$ 1 bilhão.

Explicação

O motivo do novo adiamento é o mesmo do primeiro: dar mais tempo ao governo para costurar o novo empréstimo bancário. Assim, as distribuidoras terão meios de quitar suas obrigações, já que os valores não podem ser absorvidos por seus caixas. A Aneel também determinou que os valores pendentes sejam corrigidos pela Selic.

Negociações

O entrave na captação do empréstimo não está relacionado à negociação bancária em si, mas às divergências entre os ministérios de Minas e Energia e o da Fazenda. De um lado, o MME defendia um acerto imediato do empréstimo de R$ 2,6 bilhões para pagar as dívidas de novembro e dezembro. Já a Fazenda preferiu tratar conjuntamente o novo financiamento e a os empréstimos tomados em 2014, e que somam R$ 17,8 bilhões.

Plano de melhorias

Outro diretor da Aneel, Romeu Rufino, disse que está convocando algumas distribuidoras para discutir melhorias nos serviços. Segundo ele, as empresas estão sendo escolhidas conforme o nível de reclamações dos consumidores na agência. Ainda de acordo com o diretor, as empresas que forem acionadas terão de elaborar um plano de melhorias, que impeça ou reduza as falhas, os chamados "apaguinhos".

PIB pode se retrair com racionamento

São Paulo. Um eventual racionamento de energia este ano pode levar à contração de 1,5%, no Produto Interno Bruto (PIB) do País, estima o banco Credit Suisse. Segundo a instituição, por conta dos níveis atuais dos reservatórios de água e da falta de chuvas, a chance de um racionamento está agora em 40%. No final do ano passado, o banco estimava que a probabilidade de restrição de acesso à energia estava em menos de 20%.

"Basicamente, se considerarmos o que ocorreu em 2001, calculamos que, para cada 10% de racionamento durante um ano, teríamos um ponto percentual de PIB a menos", disse Daniel Lavarda, economista do Credit Suisse. Se não houver racionamento, a economia deve recuar 0,5% em 2015, calcula o banco.

A instituição acredita que, caso o governo decrete racionamento após o término do período de chuvas, em abril, haverá um forte impacto na atividade no segundo e no terceiro trimestre. "Em 2001, o impacto foi visto no trimestre do anúncio e, logo em seguida, quando tivemos a maior redução", afirmou.

O crescimento de 2016 também seria afetado. O Credit Suisse estima que, por conta dos ajustes feitos este ano, a economia brasileira voltaria a crescer no próximo ano, registrando expansão de 1,5%. Caso haja racionamento, contudo, o aumento no PIB deve ficar em apenas 1%, projetam os economistas.

Opinião do especialista

Governo deve ampliar obras

Neste ano, ainda teremos segurança hídrica no Ceará, que está bem situado dentro do cenário nacional. Mas, o governo deve aproveitar esse tempo para ampliar obras emergenciais, avançando na construção de adutoras, açudes inteligentes e barragens subterrâneas. Para médio e longo prazo, é preciso concluir o Cinturão das Águas e suas obras complementares, que vai atender grande parte da população cearense. Em relação à indústria, a principal demanda é a instalação dos outros dois sifões do Eixão das Águas, que transporta água do açude Castanhão para a Região Metropolitana de Fortaleza e para o Pecém. Dos quatro sifões previstos, só foram instalados dois. Portanto, podemos aumentar a capacidade hídrica em 50%. Vale lembrar que a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) precisará de bastante água para operar. Além dessas ações, o governo pode viabilizar uma campanha educacional para mudar a cultura das pessoas quanto ao consumo da água, reduzindo, inclusive, para quem economizar".

Heitor Studart
Presidente do Conselho Temático de Infraestrutura da Fiec

Inflação

Para o banco, a inflação este ano deve ficar sempre acima de 7%, situação que não se via desde 2003, afirmou o economista-chefe da instituição, Nilson Teixeira. O eventual racionamento de energia neste ano pode pressionar ainda mais os preços, levando a um acréscimo de 0,7 ponto percentual na taxa, de acordo com o banco. A inflação terminaria o ano em 7,8%.

Negócios