EUA e Cuba iniciam conversas históricas

By | 22/01/2015

Washington A delegação norte-americana de mais alto nível a chegar a Cuba em 35 anos iniciou, ontem, conversas com autoridades cubanas para restaurar as relações diplomáticas e eventualmente estabelecer laços comerciais e de viagem plenos entre os dois países, adversários desde os tempos da Guerra Fria. Os dois dias de reuniões são o primeiro contato desde que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o cubano Raúl Castro anunciaram, em 17 de dezembro, terem obtido um avanço histórico na retomada das relações depois de 18 meses de negociações secretas.

Obama abriu caminho para a suspensão das sanções econômicas e do embargo comercial de 53 anos contra a ilha comunista. "Estamos pondo fim a uma política que já passou há muito do prazo de validade. Quando aquilo que você está fazendo não funciona há 50 anos, é hora de tentar algo novo", Obama disse ao Congresso em seu discurso anual do Estado da União na noite da última terça-feira (20).

Ele também exortou o Congresso a começar a trabalhar pelo fim do embargo, mas críticos afirmam que, primeiro, Obama precisa obter concessões do governo comunista em relação a presos políticos e direitos democráticos; a apelos de cidadãos norte-americanos cujas propriedades foram nacionalizadas após a revolução cubana de 1959; e a fugitivos norte-americanos que receberam asilo no país vizinho.

Além do fim do embargo, Obama pediu o fechamento da prisão americana em Guantánamo, território cubano, promessa feita no início do seu mandato. "É tempo de acabar o trabalho. Estou decidido e não vou desistir até encerramos a prisão", disse. Ele observou que a prisão não "se justifica" e que não faz sentido mantê-la a um custo de US$ 3 mil por prisioneiro.

Preocupação

Sobre o cenário internacional, o presidente norte-americano denunciou o que chamou de ressurgimento do antissemitismo em relação aos muçulmanos, em certos lugares do mundo. "Nossa mudança na política em relação a Cuba tem potencial para acabar com um legado de desconfiança no hemisfério", disse.

Representantes cubanos na missão oficial americana, no entanto, expressaram preocupação com alguns pontos, dentre eles a Lei de Ajustamento Cubano e a política de "pés secos-pés molhados", consideradas, por eles, "o principal incentivo à imigração ilegal para os Estados Unidos". Em vigor desde 1966, a lei oferece facilidades à instalação dos imigrantes cubanos, dando-lhes o status de residentes pelo período de um ano, benefício que não é concedido a nenhuma outra nacionalidade.

A política de "pés secos-pés molhados" agiliza o acesso à residência permanente aos cubanos que conseguem chegar ao solo norte-americano. Os abordados no mar são repatriados para a ilha. Cuba está a 140 quilômetros do extremo sul da Flórida.

"Expressamos preocupação porque a lei vai contra o espírito e a letra dos acordos migratórios que estamos revendo nesta sessão de trabalho", disse o subdiretor para as questões dos Estados Unidos do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Gustavo Machín.

Até sábado (24), a primeira missão oficial americana, liderada pela secretária de Estado adjunta para a América Latina, Roberta Jacobson, vai permanecer no país discutindo a normalização das relações diplomáticas, rompidas desde 1961. Entre as primeiras medidas, está a reabertura das embaixadas.

Visita presidencial

Após o discurso no Congresso, o presidente Barack Obama viajou, ontem, em direção aos estados de Idaho e Kansas para promover seus planos de ajudar a classe média.

A visita, que deve durar dois dias, tem o objetivo de divulgar sua mensagem de que a economia dos EUA se recuperou de fato após anos complicados. Segundo o governante, é hora de adotar políticas como aumentar os impostos para os ricos e oferecer ensino superior de graça por dois anos.

O presidente, do Partido Democrata, ameaçou vetar esforços republicanos contra a lei de reforma do sistema de saúde conhecida como "Obamacare" e contra o afrouxamento da política imigratória. Já os republicanos, pediram que Obama seja mais humilde, uma vez que o partido de oposição assumiu o controle de ambas as casas no Congresso este mês após vencer as eleições de novembro.

Em seu discurso no Congresso, Obama disse aos parlamentares e a milhões de telespectadores que era hora de "virar a página" da recessão e da guerra e de trabalhar juntos para recuperar a classe média norte-americana que ficou para trás.

A intenção do presidente de estabelecer uma rede de segurança mais cara para a classe média e os mais pobres tem pouca chance de se tornar lei este ano, mas pode se tornar tema central de debate nas eleições presidenciais de 2016.

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