Estatística viral sobre 1% mais ricos não significa bem o que parece

By | 24/01/2015
Harvard (Foto: Keystone)

Nos últimos dias, um estudo divulgado pela ONG Oxfam que afirmava que a fortuna dos 1% mais ricos iria ultrapassar a dos outros 99% em 2016 repercutiu nas redes sociais e nos principais jornais do mundo – Época NEGÓCIOS também publicou a pesquisa. Ainda que a desigualdade esteja em níveis historicamente altos e crescendo, a estatística de Oxfam não significa realmente aquilo que a maioria das pessoas imagina.

Isso porque os dados, baseados num relatório recente publicado pelo banco Credit Suisse, não levam em conta o dinheiro absoluto possuído por cada indivíduo, mas sua riqueza “líquida”, ou seja, tudo o que ele tem menos as dívidas que possui.

Isso significa, por exemplo, que um agricultor do Piauí que tenha somente uma casa de barro, mas nenhuma dívida, é considerado mais rico do que um recém-formado em direito na universidade de Harvard, que sai da instituição com um alto salário, mas também um financiamento estudantil a saldar (maior do que os bens que possui). Uma conclusão que, sob qualquer análise provida de bom senso, não é verdadeira.

“Para enxergar o problema, aqui vai outra versão do mesmo número: a riqueza combinada dos meus dois sobrinhos já é maior do que a dos 30% mais pobres do mundo somada. E eles não têm nem empregou ainda, ou heranças. Eles têm apenas um porquinho para guardar moedas e nenhuma dívida”, escreveu Ezra Klein, editor-chefe do site Vox, em artigo publicado nesta quinta-feira (22) que apontou o problema.

Como aponta o Vox, se o estudo for dividido por país, a China não teria ninguém entre os 10% mais pobres e os EUA teria mais de 7% entre os mais miseráveis do mundo, perdendo apenas para a Índia. O que, é claro, também não faz sentido algum.

Por outro lado, o trabalho de Oxfam mostra que, além da desigualdade de riqueza (que uma série de autores, entre eles o best-seller Thomas Piketty, vem demonstrando), o mundo atual sofre também de uma enorme desigualdade de acesso a crédito.

Afinal os EUA só têm tantas pessoas com dívidas justamente por ser um país bastante rico. Eles têm um mercado bancário forte o suficiente para emprestar massivamente aos americanos que querem estudar, abrir negócios ou comprar casas. O que não faz dele um país pobre, ao contrário. “A maioria das pessoas com riqueza líquida negativa está nos países ricos”, disse Anthony Shorrocks, do Credit Suisse, ao Vox.

Ainda assim, mesmo quando considerada a riqueza absoluta – ou qualquer outro aspecto de medida – o top 1% tem uma quantidade assustadora de concentração de recursos. “O que é inquestionável é que a desigualdade está muito alta”, afirmou Shorrocks ao Vox. “Qualquer medição razoável mostra que eles possuem no mínimo 40% da riqueza global” (no estudo viralizado, o top 1% atingiria 50% da riqueza em 2016).

Revista Época Negócios