Escassez de água e energia pode inviabilizar indústria

By | 21/01/2015

Água e energia são dois dos principais insumos para a produção industrial. A escassez de chuvas, a consequente redução do nível dos reservatórios e as previsões nada positivas que indicam para mais um ano de estiagem apresentam um cenário preocupante para o setor. Isso porque, além da própria redução dos recursos hídricos, há também o aumento do custo da energia e já se ouvem rumores de um possível racionamento, à frente.

> Lideranças divergem sobre alta dos impostos

O presidente do Centro Industrial do Ceará (CIC), José Dias de Vasconcelos diz que é impensável para o setor a falta destes dois insumos. "A água é o insumo mais importante e a energia é item básico. Nenhuma indústria vive sem isso. A falta ou racionamento desses itens poderá prejudicar, sobremaneira, o setor", preocupa-se. Vasconcelos reforça que a atividade já é a mais tributada e defende que haja uma maior atenção por parte do governo, para que sua competitividade possa ser garantida.

O consultor da área energética e primeiro secretário da Câmara Setorial Eólica do Ceará, Fernando Ximenes, traça um cenário nada otimista para a indústria nesse ano. De acordo com ele, o preço da energia elétrica poderá inviabilizar a indústria nacional. Ele informa que os contratos de fornecimento de energia elétrica entre indústrias e grandes produtoras de energia do Brasil devem vencer até o dia 30 de junho, deste ano.

Desta forma, quando o setor precisar buscar novos fornecedores do insumo a preços competitivos, poderá encontrar valores que ultrapassem a margem de lucro das empresas, inviabilizando a produção.

"Devido a lei básica popular de mercado da oferta e da procura, com a escassez das chuvas e o baixo nível dos reservatórios hidrelétricos no Sudeste, Centro Oeste e Nordeste, a procura de energia está maior que a sua oferta. Desta forma, a situação será muito grave para a indústria nacional no segundo semestre de 2015", projeta.

Setores mais afetados

Na região Nordeste, o consultor da área de energia aponta que a crise nos preços da energia elétrica afetará, em maior proporção, as indústrias dos segmentos de mineração, celulose, petroquímica e siderurgia.

"O primeiro grande Estado prejudicado será a Bahia: no polo industrial de Camaçari e no centro industrial de Aratu. Depois vem Pernambuco, na região metropolitana industrial de Recife e principalmente no complexo industrial de Suape. Em terceiro lugar, deverá vir o Ceará, no complexo siderúrgico metal mecânico de Maracanaú e no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp)", aponta Fernando Ximenes sobre os impactos da escassez.

Confiança

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Beto Studart, mostra-se menos assustado e acredita que o problema poderá ser amenizado, no caso do Ceará e do Nordeste, caso os empreendimentos federais em curso sejam concretizados, como é o caso da transposição do Rio São Francisco.

"Estive ontem à noite (segunda-feira) com o governador Camilo Santana na posse do Conselho Deliberativo do Sebrae-CE e, na ocasião, ele demonstrou preocupação com este possível quarto ano de estiagem e se mostrou imbuído da proposta de trabalhar com a presidente Dilma Rousseff para que a transposição de águas seja concluída até o fim deste ano", contou.

De acordo com ele, o empreendimento vai aliviar a parte da direita geográfica do Ceará e é necessária para que se possam garantir os recursos hídricos para as novas indústrias do Estado, como a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), que começará a operar no primeiro trimestre do ano que vem. "A questão pode ser resolvida, mas as medidas precisam chegar", reforça.

População arcará com aumento nos cosméticos

Representante do setor químico, que engloba a atividade de fabricação de cosméticos, o atual presidente do Centro Industrial do Ceará (CIC), José Dias de Vasconcelos, mostrou-se surpreso com a medida anunciada na última segunda-feira pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de passar a cobrar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) das distribuidoras destes produtos. Segundo ele, a consequência é o aumento dos preços de itens que, destaca, são de primeira necessidade.

"É pasta de dente, xampu, protetor solar, sabonete, entre tantos outros produtos que se usam diariamente. Não é supérfluo e não pode ser tributado como supérfluo, é artigo de primeira necessidade", reforça. Ele destaca que os cosméticos já possuem uma alta carga tributária, comparada à de produtos como bebidas, cigarros e munição.

Peso dos impostos

O setor de cosméticos e perfumaria tem carga tributária média de 54,88%, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), que informa: a atividade responde por 1,8% do Produto Interno Bruto brasileiro. "Mas, até então, com distribuidor e atacadista não tinha incidência do imposto, e isso agora prejudica um setor que tem crescido bastante, atingindo um faturamento de R$ 100 bilhões no Brasil", critica. Ele informa que o Ceará conta com 35 empresas no segmento, a maioria de pequeno e médio porte, mas também alguns grandes.

Repercussão nacional

O presidente da Abihpec, João Carlos Basílio, disse estar "chocado" com a medida do governo, em entrevista concedida ao jornal Valor Econômico, na qual afirma que o setor "vai para a briga". Com a medida, o governo espera que sejam injetados aos cofres da União R$ 381,41 milhões a partir de junho de 2015, e R$ 653,85 milhões, no ano completo.

Salários vão ser mais corroídos

As medidas anunciadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para reforçar a arrecadação do País neste ano estão sendo vistas por representantes do setor produtivo do Ceará como a prova de que o atual governo é incapaz de equilibrar as contas públicas, sem apenar os trabalhadores brasileiros, que já suportam uma das maiores cargas tributárias do mundo.

Se aumentar impostos parece ser o caminho mais fácil para o governo fazer o Brasil retomar o crescimento econômico, para a população, as mudanças representam uma verdadeira "via- crúcis". Isso porque, a partir das medidas saídas do chamado "saco de maldades", do ministro da Fazenda, o salário dos brasileiros será ainda mais corroído, impactando negativamente a cadeia de consumo.

‘Qualidade da arrecadação’

"Essas mudanças comprovam claramente o mau uso do dinheiro público. O que precisa ser priorizado é a qualidade do uso da arrecadação. O governo tem que utilizar o dinheiro de forma mais eficaz, acabando com o desperdício e com a corrupção", afirma Fernando Cirino, presidente da Durametal, empresa cearense do segmento metalmecânico.

Ao contrário do que pretende o governo, o reforço na arrecadação não está necessariamente ligado ao aumento da confiança na economia do País, segundo observa o empresário. Para ele, a equipe econômica deveria priorizar o corte de despesas públicas.

De acordo com o anúncio de Joaquim Levy, a maior arrecadação (R$ 12 bilhões) virá da elevação do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) sobre os combustíveis e do retorno da Contribuição para Intervenção no Domínio Econômico (Cide).

"Enquanto o preço da gasolina vem caindo em todo o mundo, com o barril do petróleo mais barato, o combustível vai ficar ainda mais caro no Brasil. Estamos caminhando na contramão, e quem mais sofre é o consumidor", acrescenta. Fernando Cirino alerta que a indústria brasileira, setor que mais sente os impactos da atual situação econômica, ficará ainda mais instável.

‘Não é nossa praia’

O aumento do Imposto sobre operações Financeiras (IOF) no crédito para pessoas físicas, cuja alíquota dobrará de 1,5% para 3% ao ano, é uma das medidas que mais afetam o comércio. Com a mudança, o governo espera obter uma arrecadação extra de R$ 7,4 bilhões.

"Aumento de impostos não é a nossa praia, isso é a última coisa que o varejo quer. Existem outras formas de fazer o País voltar a crescer, pois já pagamos muitos tributos", declara o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Fortaleza, Severino Neto.

Retração no consumo

Ele também lembra dos reflexos da cobrança do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) às empresas distribuidoras de cosméticos e do PIS/Cofins sobre produtos importados, cuja alíquota saltará dos atuais 9,25% para 11,75%.

Como as mudanças afetarão diretamente o bolso dos consumidores, o presidente da CDL Fortaleza teme que haja uma forte retração no consumo ainda neste ano, quando o governo busca arrecadar mais. "O dinheiro para ampliar a arrecadação vem do bolso do trabalhador. E, quanto mais caros os impostos, maior é a inflação.

Espero que o governo fique atento a isso, para que o ritmo de consumo se mantenha no mercado", observa.

Opinião

‘Governo deveria cortar na própria carne’

Sou contra qualquer medida que busque elevar a carga tributária. Em um País, cuja população já paga com impostos o equivalente a quase 37%, do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, as mudanças econômicas só vêm para penalizar quem produz e gera emprego no Brasil.

O governo deveria cortar na própria carne, diminuindo o número de ministérios e acabando com regalias de parlamentares, por exemplo. Ao invés de elevar impostos e castigar toda a sociedade brasileira, deveria incentivar a produtividade das empresas e a confiança dos consumidores em geral, por meio de desonerações, pois as alterações só ajudam a diminuir a credibilidade na economia brasileira.

André Montenegro
Presidente do Sinduscon-CE

Sérgio de Sousa/Raone Saraiva
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