Um olhar sobre a transformação

By | 30/12/2015

É o retrato de uma menina Kaiapó, em seu penteado e pintura feitos pela tradição ancestral, que anuncia apropriadamente a riqueza distribuída nas 250 páginas do livro "Amazônia Ocupada", de João Farkas. A publicação, lançada em novembro deste ano, traz um olhar sensível do fotógrafo sobre as transformações pelas quais passou a região e os seus habitantes num período de quatorze anos.

Resultado de dez incursões à Amazônia, realizadas entre 1985 e 1999, a narrativa fotográfica de João Farkas percorre garimpos, aldeias indígenas, estradas improvisadas no meio da floresta, vistas aéreas – muitas imagens foram captadas a partir de aviões – acampamentos, bordeis, entre outros locais.

O objetivo é um só: documentar as mudanças geradas pela ocupação, valorizando as vidas humanas e a natureza, sem deixar de expor o impacto que um universo causa sobre o outro.

Alguns textos intercalam as sequências de imagens, funcionando como um diário de viagem, fruto da observação, dos diálogos e dos processos pelos quais passou Farkas até materializar sua ideia.

Outros, escritos por Paulo Herkenhoff, Ricardo Lessa e Lilia Moritz Schwarcz, lançam reflexões sobre as fotografias, utilizando as imagens para compreender camadas complexas da realidade. Vale ressaltar que a edição é bilíngue (português-inglês).

Ao final do livro, as imagens são todas legendadas e o leitor também tem acesso a um mapa das andanças de Farkas. Essa contextualização auxilia no processo de (des)construção de um imaginário alimentado pelo que já se está acostumado a ver e a ouvir daquela região.

Relatos

Farkas é enfático em relação à missão que se propôs. "Meu instinto me dizia o tempo todo que era urgente e necessário fotografar. Fotografar tudo que fosse possível. Voltar e voltar quantas vezes pudesse. Mostrar aos outros o que os meus olhos enxergavam. De alguma forma criar um alerta, mesmo que fosse para a História. Combater a sensação aterradora de irreversibilidade, de crime impune e silencioso. E ao mesmo tempo ser capaz de entender as motivações e dar voz aos anônimos personagens daquela saga", conta.

Ao seu lado, o jornalista Ricardo Lessa, que o acompanhou nas viagens, relata momentos de deslumbramento e perturbação diante de descobertas que se assemelham às dos colonizadores, ainda que passados mais de 500 anos da chegada dos portugueses.

"Inevitável se sentir como um ‘vouyer’ ao olhar através da espessa camada de milênios que separa duas culturas, naquele momento tão próximas. Avançar a mão para o outro lado do vidro parece uma temeridade, um risco de quebrar o encanto e a mágica virar maldição", diz Lessa.

Paulo Herkenhoff, por sua vez, observa as especificidades da fotografia do autor do livro. "Na visão plástica de Farkas, há verdes infernais, pores do sol eldorados, cinzas geocidas. Em sua geometria há linhas retas, curvas, transversais, retângulos, malhas são clareiras, estradas, garimpos, pistas de pouso, cidades e conjuntos habitacionais. A câmera fixa a geometria ex-ótica, i.E., a linha reta imposta à selva como ‘clareira’ obscurecente", descreve o curador e crítico de arte no livro.

Reflexões

A contribuição da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz é mais no sentido de identificar uma verdadeira epopeia feita de gentes, culturas e muitas cores. "Terra descoberta, terra arrasada, terra refeita", descreve em seu texto na obra.

Da academia, ela traz as conclusões do etnólogo Claude Lévi-Strauss, quando este afirma que "é preciso diferenciar sem hierarquizar". E é exatamente esse o desafio que a antropóloga lança sobre o trabalho de Farkas.

"Não se tratava de transformar em igual o que seria de fato diverso: os garimpeiros e os arredores que ajudaram a criar. No entanto, projeto melhor é aquele que evita a decorrência fácil de supor no ‘outro’ alguém que é ‘menos’: menos civilizado, menos ordeiro, menos pacífico, menos humano. Manter o véu do estranhamento, a nuvem da diversidade, é sempre procedimento analítico e de registro visual dos mais saudáveis", aponta a historiadora.

Lilia atribui ainda às fotos de Farkas um processo de familiaridade e compreende que elas são "afetadas" pelas gentes, pelos costumes, por suas contradições, pelo trabalho em excesso, pelo lazer que reconforta, pelas famílias estendidas, pelas habitações frágeis e pelas condições de vidas que acabam se reinventando como se fossem "para sempre".

"Como nada é para sempre, se as fotos ‘imobilizam’ um tempo que já passou, ‘mobilizam’ a subjetividade do próprio artista, que guardou aquilo que sua sensibilidade escolheu ou pode selecionar", conclui a antropóloga.

Livro

Amazônia Ocupada
João Farkas

Edições Sesc São Paulo/Editora Madalena
2015, 250 páginas
R$ 110

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