Um capitalismo para o povo ou para os compadres?

By | 13/06/2015
É Capital (Foto: Época NÉGÓCIOS Online)
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Luigi Zingales, professor da escola de negócios da Universidade de Chicago  (Foto: Divulgação)

São muitas as variações sobre o tema capitalismo. Duas delas, porém, estão sob a lupa do economista italiano Luigi Zingales, professor da escola de negócios da Universidade de Chicago (Chicago Booth). Ele as aborda no livro Um Capitalismo para o Povo, Reencontrando a Chave da Prosperidade Americana (BEĨ Editora). A primeira versão é voltada para o povo. Ou melhor, é direcionada para o mercado, mas tem como motor a livre iniciativa, com razoável grau de concorrência e — até onde isto é possível — uma disputa equânime entre seus atores. Zingales indica que essa variante do sistema econômico leva ao desenvolvimento com oportunidades. O que, no fim do dia, beneficia o indivíduo (o povo, portanto). A outra modalidade é o capitalismo de compadres. Uma definição que, convenhamos, dispensa maiores apresentações entre nós, brasileiros.

Note-se que o livro de Zingales não é um tratado sobre versões do capitalismo. Ao contrário. Ele se apropria dos termos “povo” e “compadres” para isolar dois momentos do sistema econômico americano. O “popular”, quase perdido no tempo, alimentou por décadas o Sonho Americano. Ele deixava um imenso horizonte aberto diante dos cidadãos, indicando que a recompensa material pelo esforço era possível. Ela estaria logo ali, ao alcance de suas mãos. Esse pacote tinha o respaldo das massas. Era considerado justo e as motivava.

O “compadrio”, que define o modelo vigente nos Estados Unidos, é o oposto. Ele estreita o campo das oportunidades. Sob o ponto de vista das pessoas, é asfixiante. O esforço torna-se inócuo. Ele não está mais associado a uma recompensa material. Por isso, na prática, não conta com o apoio popular. Esse desdém é acentuado em momentos de crise. Diz Zingales que, em média, um jovem americano de 20 a 30 anos ganha hoje 19% menos (em termos reais) do que seu pai ganhava com a mesma idade. Isso se estiver empregado. “A possibilidade de ascender da pobreza à riqueza está diminuindo”, define o autor. Sendo assim, que povo se dispõe a assinar um contrato nesses termos?

"Um Capitalismo para o Povo, Reencontrando a Chave da Prosperidade Americana", de Luigi Zingales (Foto: Divulgação)

Para nós, brasileiros, interessa conhecer detalhes da formação do “compadrio” americano. Ele, em muitos aspectos, é distinto do nosso. Tem uma anatomia peculiar. Zingales o vê marcado pelo poder crescente das grandes corporações e dos lobistas sobre o Estado. Ainda assim, as similaridades com os trópicos são inequívocas — e reveladoras. Os efeitos também. Lá, como cá, o que se perde com o capitalismo de compadres é a eficácia do modelo. E o que pode ser mais grave: o sonho também se esvai.

Revista Época Negócios