Protesto de caminhoneiros faz empresas terem prejuízo e abastecimento falhar em vários pontos do país

By | 25/02/2015
Caminhoneiros fecham parte da Rodovia Fernão Dias (BR-381) em Igarapé, na Grande BH (Foto: Jornal Cidades – MG)

Diversas rodovias pelo Brasil seguem com trechos interditados na noite desta terça-feira (24/02) por conta do protesto de caminhoneiros. Segundo balanço da Polícia Rodoviária Federal, havia 124 interdições em nove estados do Brasil. As unidades da federação com maior número de trechos interrompidos no final da tarde eram Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, a Justiça já determinou a liberação das rodovias, sob pena de multa.  Grandes empresas, como a BRF, já falam em perdas de R$ 8,5 milhões até o momento.

Os caminhoneiros protestam contra o aumento no preço dos combustíveis e o reajuste nos valores dos fretes. “Hoje, a nossa margem de lucro é zero: ou você sustenta a sua família ou você sustenta o caminhão na estrada – você tem que escolher”, disse Ivar Luiz Schmidt, um dos representantes do movimento. Ele defende a criação de um frete mínimo.

Representantes do Comando Nacional do Transporte, grupo organizador do protesto dos caminhoneiros, não foram recebidos por ministros do governo Dilma Rousseff. Eles tentavam encontros com o ministro dos Transportes, Antônio Carlos Rodrigues, e com a ministra da Agricultura, Kátia Abreu.

Negociação
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, confirmou nesta noite de terça-feira (24/02) que o governo federal criará uma mesa de negociação entre os caminhoneiros que fazem protestos no país e os empresários para "avançar na questão do preço do frete". A redução do preço do óleo diesel, no entanto, não está em pauta.

A mesa vai agrupar sindicalistas dos caminhoneiros, empresários e ministros. "Nós estamos instalando amanhã e coordenando uma mesa de negociações, de diálogo, entre empresários, representantes das lideranças dos caminhoneiros, às 14 horas, para que possamos, num ambiente de negociação direta, avançar na solução do preço do frete no nosso país", disse.

Segundo o ministro, o governo busca preservar o abastecimento para evitar prejuízo à já combalida economia em meio aos protestos. "O governo tem tomado todas as medidas para evitar a obstrução das nossas rodovias, garantindo assim o abastecimento da sociedade brasileira e evitando prejuízos a nossa economia. Ao mesmo tempo, o governo tem estimulado uma negociação direta entre empresários e lideranças dos caminhoneiros para resolver a questão do preço do custo do frete, que afinal é o tema central dessas manifestações.

Consequências
A paralisação já afeta o país de diferentes maneiras. Em algumas cidades da região Sul, já começa a faltar combustível. Em São Paulo, há a previsão de menor oferta de alguns tipos de frutas, como banana, mamão e morango. A fábrica da Fiat em Betim (MG) teve que dispensar funcionários e parar a produção, pois peças não chegaram.

Por conta de paralisação na Rodovia Anchieta, o embarque de grãos no Porto de Santos ficou prejudicado hoje.  O protesto começou no início da tarde. De acordo com a Ecovias, veículos de passeio estão sendo autorizados a trafegar pelo acostamento. Segundo a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), a interrupção ocorre no trecho entre os pátios de triagem, onde chegam os caminhões com agendamento, e os terminais de cargas. Com o bloqueio, os caminhões não estão deixando os pátios para seguir até os terminais, onde seria realizado o desembarque dos grãos.

Preocupação
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, afirmou na tarde desta terça-feira que os protestos dos caminhoneiros são preocupantes e têm efeito importante sobre a atividade econômica. "Pode haver algum reflexo no trânsito das mercadorias, mas não me parece que seja algo muito relevante ainda", afirmou Monteiro, ao ser questionado sobre impactos na balança comercial. "Não posso quantificar isso ainda."

"Você interrompe o fluxo de circulação de mercadorias, você altera todo o ciclo de operação das empresas, com graves prejuízos", disse o ministro. Monteiro garantiu que vários ministérios estão interagindo para garantir uma solução para esse problema. "O governo, neste momento, tem garantido uma disposição para ouvir os setores e para agir na sua esfera de competência para que os prejuízos resultantes dessa situação possam ser atenuados", afirmou.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) pedirá aos governos federal e estaduais providências para solucionar a paralisação de caminhoneiros que bloqueiam rodovias em vários estados, de acordo com nota divulgada no início da noite. A entidade manifestou preocupação com os efeitos da paralização e com as perdas para o setor industrial.

"O ato acontece em um momento difícil para o setor produtivo e torna a situação ainda mais complicada, pois gera prejuízos como perdas de produtos perecíveis, aumento do custo de transporte e interrupção de linhas de produção", diz a nota.

Prejuízos
Os prejuízos com a greve dos caminhoneiros começam a ser contabilizados na região Sul do país. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a BRF Brasil relatou perdas de R$ 8,5 milhões até o momento. A Aurora deixou de entregar 1 milhão de litros de leite e, nesta quarta-feira, 25, deve parar o abate de aves.

Francisco Turra, presidente-executivo da ABPA, classificou a situação como grave. O fluxo produtivo do segmento está travado: a ração para as aves não chega e os animais que foram abatidos não podem ser escoados. Ele disse, ainda, que a BRF informou à associação que tem 250 veículos retidos nos bloqueios, 5 mil toneladas de produtos acabados represados na fábrica e que está quebrando 2 milhões de ovos férteis. Em relação aos grãos, a empresa tem 2 mil veículos carregados, somando 70 mil toneladas.

O executivo relatou as perdas financeiras da companhia. Apenas com ovos, R$ 1 milhão, com a parada da produção, R$ 2,5 milhões, com conversão alimentar dos animais alojados no campo, R$ 5 milhões. Ele explicou ainda que tanto a BRF Brasil quanto a Aurora deixaram de entregar 1 milhão de litros de leite cada uma.

"Isso se multiplica, todas as empresas estão parando. Essas duas são apenas exemplos que chegaram até mim", disse.

A JBS informou que suspendeu o abate de frangos e suínos em oito plantas industriais por causa dos problemas de logística enfrentados com a paralisação de caminhoneiros. As unidades em que as operações foram interrompidas ficam em Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. As indústrias ainda em atividade nestes Estados operam com ociosidade entre 30% e 40%.

Somente em Santa Catarina, quatro unidades foram paralisadas: duas em Itapiranga, uma em São Miguel do Oeste e outra em Seara. A produção também foi interrompida em Campo Mourão e Jaguapitã, no Paraná, e nas indústrias da JBS em Ana Rech (RS) e Cassilândia (MS).

A companhia não informou estimativas de perdas financeiras e de volume de carnes que deixam de ser industrializados, mas afirma que os Estados em questão são responsáveis por 75% da sua produção de aves e suínos. A JBS afirma que a decisão de paralisar as atividades nas oito fábricas decorre da falta de insumos para a ração e também de embalagens para os animais, após abate.

Justiça determina liberação
A 14ª Vara Federal de Minas Gerais determinou a desocupação de todas as rodovias federais do Estado bloqueadas pelos protestos dos caminhoneiros, ao analisar ação proposta pela Advocacia-Geral da União (AGU). Pela decisão desta tarde, os motoristas têm prazo de três horas para liberar a via, a contar da notificação da decisão.

Foi a segunda decisão favorável à AGU nesta terça-feira. Mais cedo, a Justiça do Rio Grande do Sul determinou o desbloqueio de trechos das BRs 293, 116 e 392. Em Minas Gerais, a multa prevista no caso de permanência dos caminhoneiros nas estradas é no valor de R$ 5 mil por hora por pessoa física – cada caminhão – e R$ 50 mil por hora no caso de instituições organizadoras.

A exemplo do que foi previsto no Rio Grande do Sul, a Justiça mineira também liberou o uso da força policial para garantir o desbloqueio das rodovias do Estado. Além do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, a AGU entrou com ações ontem para liberar as estradas bloqueadas por caminhoneiros em Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina. Nesta terça, uma nova ação foi protocolada, desta vez no Estado de São Paulo.

Revista Época Negócios