Odebrecht nega ter patrocinado desfile da Beija-Flor

By | 20/02/2015
Beija-Flor desfila em 2015 com samba-enredo inspirado na história da Guiné  (Foto: Marco Antonio Cavalcanti/ Riotur/Fotos Públicas)

A Construtora Noberto Odebrecht (CNO) divulgou nota na manhã desta quinta-feira (19/02) em que nega ter patrocinado o polêmico desfile com que a Beija-Flor de Nilópolis, campeã do carnaval carioca de 2015, homenageou a Guiné Equatorial.

Sob o comando da ditadura de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo desde 1979, o pequeno país africano foi apontado como patrocinador do enredo. Nega oficialmente, porém, ter dado dinheiro – de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões – para a agremiação exaltá-la na Sapucaí.

A Beija-Flor apontou empreiteiras brasileiras que atuam no país como responsáveis pelo financiamento. Mas a CNO desmente ter sido uma delas e mesmo ter negócios na Guiné Equatorial.

"A Odebrecht não patrocinou o desfile do Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro", diz o texto divulgado pela empreiteira. "A Odebrecht esclarece ainda que nunca realizou obras na Guiné Equatorial. A empresa chegou a manter um pequeno escritório de representação no país africano, mas ele foi desativado em 2014."

A vitória da Beija-Flor, décimo-terceiro campeonato conquistado pela escola no atual Grupo Especial, foi cercada de controvérsia. Uma delegação de autoridades da Guiné Equatorial esteve em um camarote na Passarela do Samba. Um dos integrantes da comitiva era o vice-presidente do país e filho de Obiang, Teodoro Obiang Mangue, conhecido como Teodorin.

O governo, que alugou suítes no Hotel Copacabana Palace para seus integrantes que vieram ao Brasil acompanhar o desfile, nega, porém, que o presidente estivesse no grupo. O presidente, informou por nota oficial o governo da Guiné Equatorial, estava na República de Camarões em 16 de fevereiro, segunda-feira de Carnaval, quando a escola desfilou. Era uma reunião do Conselho de Paz e Segurança da África Central, para discutir o enfrentamento do grupo terrorista Boko Haram.

Uma foto dos chefes de Estado e de governo, entre os quais está Obiang pai, foi postada no site da Comunidade Econômica dos Estados da África Central. O presidente da Guiné Equatorial é o segundo na primeira fila, da esquerda para a direita. A data aparece em um banner, ao fundo.

Neguinho da Beija-Flor
Intérprete da Beija-Flor e um dos sambistas mais famosos do país, Neguinho da Beija-Flor afirmou que o dinheiro sujo organizou o Carnaval do Rio de Janeiro. A declaração foi dada ao vivo, por telefone, na manhã desta quinta-feira à Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, do Grupo RBS. "Se não fosse a contravenção meter a mão no bolso, organizar, estaríamos ainda naquele negócio de arquibancada caindo, desfile terminando duas horas da tarde, cada escola desfilando duas, três horas e a hora que quer. E a coisa se organizou", afirmou. Em seguida, falou em tom irônico: "Se hoje temos o maior espetáculo audiovisual do planeta, agradeça à contravenção".

O cantor foi questionado sobre a polêmica que envolveu o título da Beija-Flor este ano, de que, ao comemorar a cultura africana, homenageou Guiné Equatorial, país que vive em uma ditadura há 35 anos. Neguinho minimizou o fato, dizendo que a Europa tem histórico de exploração de negros, mas que comumente é celebrada nos desfiles.

Sobre o fato de que a Beija-Flor teria recebido um patrocínio de R$ 10 milhões do governo do ditador Teodoro Obiang, Neguinho declarou não ter conhecimento, mas disparou: "Deixa falar. Deu mídia. Deixa falar". E emendou: "A Portela também teve um patrocínio muito forte. O governador do Rio de Janeiro, o Pezão, queria que a Portela ganhasse. Vai dizer que ele não fez investimento? O prefeito é portelense doente. Vai dizer que não colocaram dinheiro na Portela?".

Neguinho foi questionado em seguida sobre a contribuição de contraventores, como milicianos, donos de bancas do bicho e até de traficantes às escolas. Nesse momento, disse: "Se não fosse dinheiro da contravenção, hoje não teríamos o maior espetáculo audiovisual do planeta. Eu sou do tempo que desfile de escola de samba era a maior bagunça. Terminava duas, três horas da tarde. Chegou a contravenção e organizaram. Hoje eles batem no peito e dizem com o maior orgulho 'a maior festa audiovisual do planeta'. Agradeça à contravenção".

Revista Época Negócios