O delírio psicótico de Craven

By | 25/01/2016

A trilogia "Pânico" segue cultuada no mundo inteiro, tanto pelo seu sucesso entre os adolescentes dos anos 1990, como pelos feitos surpreendentes alcançados pelo diretor Wes Craven ao construir toda uma cadeia de eventos que culminava em assassinatos chocantes e inesperados. Na franquia, o espectador descobria que "Ghostface" podia ser, na verdade, qualquer pessoa que cerca a mocinha Sidney. Toda essa revelação acontece de uma forma até infantil.

Como nos finais dos episódios de Scooby Doo, os desfechos acontecem quando a personagem principal tira a máscara e revela quem dessa vez estava tentando matá-la. É justamente essa característica que torna o vilão (ou vilões) tão implacável.

>20 anos de PÂNICO 

A construção de assassinos assustadores é uma arte que, antes de "Pânico", o diretor norte-americano mostrava já dominar muito bem. Em 1984, Wes estreou nas telas de cinema um vilão tão implacável quanto "Ghostface". Freddy Krueger era a estrela, por assim dizer, de "A Hora do Pesadelo" (A Nightmare on Elm Street), que assombrava as suas vítimas indefesas quando elas sonhavam.

Se em "Pânico", uma das regras para sobreviver é não ter um comportamento clichê de filmes de terror (como fazer sexo, usar drogas ou dizer "volto já"), em a "Hora do Pesadelo" a sobrevivência exigia muito mais sacrifício: não dormir. Como lutar contra isso?

Assim como a jovem loira do epílogo, a mocinha Sidney Prescott é perseguida pelo assassino anônimo, que se orgulha dos seus crimes exibindo suas vítimas em posições chocantes. Entretanto, um dos diferenciais da personagem é que, em sua aparente fraqueza, Sidney não se deixa vencer pelo terror psicológico do seu opressor e reage, muitas vezes fisicamente, ao longo da franquia para conseguir sobreviver. Sidney traduz em si a subversão dos arquétipos do gênero cinematográfico.

"’Pânico’ é a volta comercial de Wes Craven aos cinemas. Ele retoma várias coisas que foram criadas nos anos 1980, mas subvertendo os seus papéis. Sidney, em qualquer outro filme, seria uma das pessoas assassinadas imediatamente. Mas não, ela é a mais brutalizada e, mesmo assim, sobrevive. Antes das tentativas de assassinato a personagem já era traumatizada e marcada por outros eventos. Isso a torna muito mais forte", diz Sérgio Silva, programador da Cinemateca Nacional e um estudioso da obra de Wes Craven.

Dialogando com os jovens dos anos 1990, Wes utilizou o tabu da virgindade de Sidney como um elemento condutor do comportamento da personagem para conseguir sobreviver (se lembra de regra de não fazer sexo?). Para Sérgio, isso revela um pouco da realidade vivida pelos jovens da época.

"Wes debruça-se sobre personagens adolescentes traumatizados, que mesmo com a pouca idade já foram marcados pela vida e estão um pouco deprimidos. Isso é um reflexo da adolescência nos anos 1990, uma época em que não havia tantas perspectivas para jovens", analisa Sérgio.

A fórmula de explorar os demônios interiores desse público motivou uma verdadeira "corrida do ouro" dos estúdios atrás do roteirista Kevin Williamson, que escreveu filmes que pegaram carona no sucesso de "Pânico", como "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado" (1997) e "Lenda Urbana" (1998). Indiretamente, a saga do assassino que vestia a "ghostface" gerou a franquia de comédia "Todo mundo em Pânico", fazendo uma paródia do filme criado por Wes e Kevin.

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