Mulher afegã, capa mais famosa da National Geographic, é investigada no Paquistão

By | 27/02/2015
Imagem do cartão de identidade ilegal de Sharbat Gula (Foto: NADRA)

A menina afegã de olhos verdes que ganhou fama ao estampar a capa da revista National Geographic em 1985 virou notícia novamente. E mais uma vez uma foto pode mudar sua vida. A refugiada Sharbat Gula estaria vivendo no Paquistão com documentos falsos. Essa semana, a imagem de seu cartão de identidade foi destaque na imprensa nacional. Trata-se de um documento de identificação que, como uma cidadã afegã, ela não tem permissão para portar. 

Oficiais paquistaneses afirmam que Gula conseguiu seu cartão de identidade na cidade de Peshawar, localizada no noroeste do país, em abril de 2014, usando o falso nome de Sharbat Bibi. 

Revista National Geographic (Foto: Wikipedia)

Ela seria mais uma entre os milhões de refugiados afegãos que conseguiram driblar o sistema informatizado do Paquistão e retiraram o seu cartão de identidade, segundo o jornal Daily Mail. Faik Ali Chachar, o porta-voz da Base de Dados e Autorização de Registro Nacional (NADRA), disse à Agência Federal de Investigação (FIA) que está "sondando" o caso de Gula. "Esse é um dos milhares de casos que foram descobertos ano passado e foram enviados para investigação. Nós estamos aguardando o resultado do inquérito", informou Chachar.

"Nosso departamento de vigilância detectou o "caso Sharbat Bibi" em agosto de 2014 e enviou para uma investigação mais aprofundada na FIA no mesmo mês", contou Chachar. Ainda segundo o porta-voz, inúmeros refugiados afegãos tentam tirar o cartão de identidade paquistanês todos os dias usando documentos falsos. "Cerca de 23 mil cartões de refugiados afegãos foram detectados e bloqueados, em 12 anos, desde que a NADRA foi criada", afirmou. 

Em seu registro oficial junto à Nadra, Gula disse que nasceu em janeiro de 1969 na cidade de Peshawar. A foto anexada ao requerimento tem o mesmo hipnotizante par de olhos verdes e o mesmo formato de rosto que foi capturado por McCurry anos antes, em seu famoso registro, só que agora marcada pela idade e torneada por um hijab preto que cobre seu cabelo completamente.

Um oficial do escritório da NADRA em Peshawar, onde o cartão foi emitido, confirmou a investigação e disse que Sharbat Bibi (o nome falso de Gula) e dois de seus filhos retiraram seus documentos no mesmo dia. Ele disse ainda que todos os documentos que ela usou para emitir o cartão eram falsos. E que provavelmente os de seus filhos também. 

Um repórter da AFP visitou o endereço que constava como a residência de Gula em seus documentos. A vizinhança confirmou que ela morava ali com seu marido, que trabalhava em uma padaria local, mas que eles haviam ido embora a um mês. Mais uma vez na vida, Gula se viu forçada a deixar sua casa. 

A imagem que se tornou a capa mais famosa da história da National Geographic, foi tirada quando Gula tinha apenas 12 anos, em um campo de refugiados no Paquistão, durante a invasão soviética do Afeganistão, pelo fotógrafo Steve McCurry. Em 2002, 17 anos depois, McCurry encontrou Gula novamente, dessa vez em uma vila remota no Afeganistão. Ela estava casada com um padeiro e tinha três filhos.

A vida dos refugiados afegãos no Paquistão
No Paquistão, os afegãos só conseguem comprar casas, abrir contas no banco e viver permanentemente no país pelo tempo que quiserem se tiverem o cartão de identidade, o documento supostamente fraudado por Gula. O documento é usualmente obtido com papéis falsos e subornos, segundo o jornal The Guardian.

Os afegãos começaram a chegar no Paquistão durante a invasão soviética do Afeganistão em 1979. As novas gerações foram crescendo sem nunca ter ao menos visitado as terras de origem de seus ancestrais. A população afegã no Paquistão continuou a aumentar mesmo após a retirada das tropas russas em 1989, pois o Afeganistão entrou em uma guerra civil.

Em 2001 – quando o regime do talibã caiu no Afeganistão, milhões de refugiados retornaram à sua terra natal. Ainda assim, mais de 2,5 milhões permaneceram – o que a tornou a segunda maior população de refugiados do mundo.

Os afegãos são impopulares no país. Muitos paquistaneses os culpam por diversos crimes, inclusive terrorismo. As ações contra os refugiados têm se intensificado desde dezembro do ano passado, quando um grupo talibã do Paquistão atacou uma escola pública de Peshawar, e mais de 130 estudantes foram mortos.

No mês seguinte ao ataque, 33 mil afegãos sem documentos atravessaram a fronteira e voltaram para seu país, de acordo com a Organização Internacional de Imigração – o dobro de pessoas em relação ao mesmo período do ano passado. Porém, os que conseguiram chegar ao Afeganistão afirmaram ter sido espancados pela polícia, presos e expulsos de suas casas.

Uma organização internacional não-governamental que defende os direitos humanos, a Human Rights Watch (HRW), exigiu esta semana que o Paquistão pare de tentar coagir o regresso dos refugiados. "O governo do Paquistão está manchando a reputação do país em relação à hospitalidade com os refugiados", disse o diretor da HRW, Phelim Kine.

Gulzar Khan, um político e ex-comissário dos refugiados, afirmou que o Afeganistão não esperava que um grande número de pessoas deixasse o Paquistão do dia para a noite. "O atual governo afegão está em uma situação muito vulnerável tanto econômica como politicamente. Se cerca de dois milhões de refugiados são empurrados de volta, teremos uma grande crise em mãos ", disse Khan.

Revista Época Negócios