Mesmo com custos em alta, empresas mantêm otimismo para Páscoa

By | 20/01/2015
Páscoa 2015: altos custos afetam produção; fabricantes, no entanto, mantém-se otimistas  (Foto: Época Negócios)

Apesar de um cenário macroeconômico adverso, sobretudo devido às altas no custo de produção e ao baixo crescimento do Brasil, o setor de chocolates mantém uma perspectiva otimista em relação às vendas na Páscoa e realizou investimentos em inovação e produtos mais sofisticados. A estimativa da Abicab (Associação Brasileira de Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados) é que a Páscoa deste ano gere até 26 mil empregos temporários – sendo 10 mil para a produção e 16 mil para comercialização. São 2 mil postos a mais do que o gerado em 2014, quando foram produzidos 100 milhões de ovos.

Empresas do setor apresentaram seus lançamentos hoje, durante o Salão da Páscoa, realizado em São Paulo. Todas afirmaram que não diminuíram investimentos e que apostaram em inovações para neste ano. 

O ano de 2014 não foi muito animador para os fabricantes e comerciantes. Os dados já computados pela Abimac apontam que de janeiro a setembro houve queda de 2% no volume produzido em relação ao mesmo período de 2013. A tendência de desaceleração, em um setor que crescia de 7 a 10%, deve-se se manter este ano, segundo Ubiracy Fonseca, vice-presidente da associação. As vendas também cresceram bem abaixo do que nos anos anteriores. Segundo a Serasa, o crescimento de 2014 foi de 1,6%, enquanto 2013 havia registrado 5,6%. 

O que mantém a boa perspectiva neste ano, tanto de multinacionais como a Nestlé e Lacta, quanto de marcas como a Cacau Show e a Chocolates Brasil Cacau, é a importância do feriado para os brasileiros. "Pesquisamos muito o hábito dos consumidores e o que definitivamente não tem mudado é como a data segue sendo muito importante para as famílias", afirmou Pedro Abondanza, gerente de marketing da Nestlé. Além disso, é uma data que movimenta toda uma cadeia de produção – do fabricante de plásticos ao comerciante. "Nós não vemos o varejo brasileiro abrindo as portas para tantos produtos e, com destaque no corredor principal, em outros feriados do ano", afirma Maykon Viera, gerente de marketing da Lacta. A empresa, que renovou todo o seu portfólio de produtos infantis, contratou cerca de 10 mil funcionários temporários para o período. O número de ovos produzidos, no entanto, manteve-se próximo ao do ano passado, em cerca de 26 milhões. 

A Lacta reformulou todo o seu portfólio infantil; agora traz licenças da Turma da Mônica (Foto: Época Negócios)

Outro fator de otimistmo é que as empresas confiam que o Brasil ainda tem "muito a ganhar", em termos de consumo per capita de chocolate. Segundo Ubiracy Fonseca, vice-presidente da Abicab, o brasileiro consome em média 2,8 kg do produto, muito atrás dos argentinos (4 kg) e europeus (6 kg). Boa parte desse consumo é concentrada no Sudeste – no Norte e Nordeste, a população consome, em média, apenas 1 kg. "Temos um mercado enorme a ser conquistado e é por isso que os grandes players estão aqui. Eles sabem que a situação vai melhorar e querem estar prontos para o aumento do consumo".

Preço final dos ovos
Os ovos de Páscoa começam a chegar aos supermercados no dia 18 de fevereiro. Entre as empresas que participaram hoje (20/01) do Salão da Páscoa, Arcor, Garoto e Kopenhagen afirmam que os ovos que chegarão às gôndolas estarão, em média, 8% mais caros em relação aos comercializados em 2014. Já a Nestlé estima um reajuste de 10%, a Cacau Show de 7% e a Munik de até 5%. Todas as empresas afirmaram que o novo valor está muito aquém do aumento de custos que enfrentaram na produção. 

O cenário não é dos mais favoráveis. A alta do dólar, que alcançou o patamar de R$ 2,70 – tem encarecido o cacau, além dos brinquedos e embalagens. A Arcor afirmou que seu custo de produção neste ano aumentou em 10%. "Nossa solução, para não repassar tudo foi mudar o mix de produtos e focar nos itens mais rentáveis, como a Tortuguita", afirma Nicolas Seijas, gerente de marketing de chocolates da Arcor. A empresa investiu R$ 6 milhões na data, para manter o crescimento de 25% obtido no ano passado. 

Apesar das dificuldades, nenhuma empresa diz ter diminuído investimentos. "O consumidor vai ser mais seletivo. O aumento de energia, de impostos e o pacote recém-anunciado pelo ministro da Fazenda afetam a confiança. Por isso, inovar é tão importante. E uma inovação a preço acessível", afirma Maykon Vieira, gerente de marketing da Lacta. 

Tendências de consumo 
Nas prateleiras, o consumidor deve encontrar nessa Páscoa produtos mais sofisticados, além de vários produtos de linhas infantis, como Star Wars, pela Nestlé, e Turma da Mônica pela Lacta. Ovos para degustar com colher e produtos com menos açúcar e mais cacau também têm ganhado muito destaque. "Há um crescimento muito forte da parte diet, do chocolate sem lactose e daquele ovo 70% cacau. Os tradicionais à base de leite têm perdido cada vez mais espaço", afirma Márcia Bergamini, gerente de operação da Munik. Para a empresa familiar que possui 25 lojas, a Páscoa representa 50% do faturamento. 

Outra tendência é o fato de o consumidor – não só o da classe A, B, mas também parte da C -buscar produtos mais elaborados, com uma embalagem com mais "cara de presente". Para não perder espaço para lojas especializadas, as grandes empresas têm apostado então na concentração do portfólio de produtos e em novas versões dos "chocolates campeões". A Nestlé, por exemplo, traz este ano o Alpino de colher, enquanto a Garoto apresenta o Batom no mesmo formato. 

Varejo e chocolaterias 
Com uma estratégia agressiva de abertura de unidades, lojas especializadas e chocolaterias têm conquistado um público maior nos últimos anos. Com produtos considerados 'premium', embalados em caixas especiais e com recheios mais 'exclusivos', são essas fabricantes que trazem a visão mais otimista do setor. A Cacau Show, por exemplo, quer crescer 25% neste ano, atingindo 2 mil lojas e um faturamento de R$ 700 milhões. Entre os investimentos recém realizados, estão um novo Centro de Distribuição em Itapevi (SP) a e inauguração de uma nova linha de produção. Com tecnologia suíça, o sistema conseguirá produzir 3 mil ovos trufados por minuto. O fundador Alexandre Costa defende que o sucesso da Cacau Show é um foco mais amplo, voltado não só a concorrer com os supermercados, mas com outros nichos do varejo. "Somos uma loja de presente e, neste sentido, concorremos também com a perfumaria", afirma. Entre os planos da empresa pós-Páscoa, estão o investimento maior em café, sorvetes e expansão no Nordeste. 

Já a sua concorrente direta, a Chocolates Brasil Cacau, do grupo CRM, dono da Kopenhagen, também apresenta uma estratégia agressiva de abertura de lojas. O plano é abrir ao menos 150 unidades para superar 750 lojas neste ano. Para a Páscoa, a marca lança um campanha publicitária em que convida o 'público a conhecer seus produtos' e traz às prateleiras diversos itens a R$ 29,90.

Voltada a um segmento mais premium e com produtos de maior preço, a Kopenhagen investiu R$ 2 milhões em equipamentos para aumentar em 14% a produção. A empresa aposta nos ovos com a casca recheada em sabores de sobremesas famosas (Creme Bruleè e Tiramissú) e no crescimento da linha diet, como o ovo ganache.

Revista Época Negócios