Mercado olha só para estatísticas, não para elementos humanos, diz ministra ucraniana

By | 22/01/2015
Natalia Ann Jaresko, ministra de Finanças da Ucrânia (Foto: Reprodução)

Mudanças políticas drásticas, tensões diplomáticas, instabilidade causada por conflitos armados e desastres naturais. É quase impossível saber o preço de tais riscos para o mercado. E, segundo a ministra de Finanças ucraniana, Natalia Ann Jaresko, investidores têm errado na hora de avaliá-los. Para ela, questões geopolíticas são subestimadas pelo mercado. Foi o que defendeu na manhã desta quarta-feira (21/01) no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

Durante o debate “O preço da instabilidade”, Natalia afirmou que o mercado não está fazendo um bom trabalho diante de cenários desse tipo. "A Ucrânia é um exemplo", disse a ministra. Hoje, o país vive um conflito com a Rússia por territórios em disputa, que ameaça a segurança mundial. Segundo Natalia, existe uma percepção incorreta da atual situação — os ucranianos precisam de mais ajuda do que recebem da comunidade internacional.

Natalia diz que o país está em um momento de forte combate à corrupção e que está agindo rápido para acabar com o conflito. “Nosso objetivo é a paz”, defendeu. Mas investidores não querem saber disso. “O mercado olha só para estatísticas, não para elementos humanos.” Para ela, existem três razões para isso: investidores reagem "a seu próprio apetite", desconsiderando fatores externos; estão desconsiderando também que riscos não são algo objetivo, que é preciso ter sensibilidade; e, como sempre, estão se movimentando em massa, todos ao mesmo tempo, para um mesmo caminho.

A ministra estava acompanhada no painel pelo CEO da Elliott Management, Paul Singer; o CEO da Zurich Seguros, Martin Senn; e o professor de economia Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York (UNY). Singer, da Elliott Management, concorda com a posição defendida por Natalia. “Enquanto a sensibilidade para identificar o risco é extremamente alta, a almofada para suportá-lo é muito baixa.” Segundo ele, até mesmo a inflação é um subproduto de riscos geopolíticos.

Martin Senn, por sua vez, diz acreditar no contrário. Para ele, não há um problema na forma como o mercado encara riscos geopolíticos. O que mudou é a natureza do risco, e ela precisa ser entendida. Ele citou um dilema atual: 43% das empresas norte-americanas já sofreram violações de dados. É um problema novo. “Um entendimento completo de risco é a base para a resiliência”, afirmou o executivo.

O professor Nouriel Roubini, que ensina economia e negócios internacionais na UNY, também é contra a ideia. “Apesar do risco de um ataque terrorista ou de uma grande pandemia global, os mercados são racionais em não considerá-los.” Segundo ele, a chance de episódios assim acontecerem é pequena. Além disso, o resultado imediato de tais eventos, diz, é imprevisível. A equipe do evento realizou uma pesquisa de opinião com o público. Antes do debate, a maioria acreditava que o mercado estava subestimando riscos políticos. Após o fim da discussão, a votação empatou.

Revista Época Negócios