“Inovação de verdade precisa de academia e mercado”

By | 23/02/2015
Alexandre Alves, sócio da Inseed Investimentos (Foto: Divulgação)

O sotaque mineiro não esconde a empolgação de Alexandre Alves quando o assunto é inovação. Nem é para menos. Aos 47 anos, esse administrador mastiga inovação do café da manhã ao jantar em seu trabalho como sócio da Inseed, uma gestora de recursos que capta investimentos de risco e coloca dinheiro em empresas inovadoras com alto potencial de crescimento. São R$ 265 milhões sob gestão, divididos em dois fundos: o Criatec, voltado para o capital semente – para empresas ainda em estágio muito inicial – e o Fima, destinado para empresas que inovam na área de meio ambiente.  

Essa, aliás, é uma das diferenças no trabalho de Alves. Ao contrário de 99,9% dos profissionais de fomento à inovação, ele foge do investimento na internet e nas empresas pontocom; o negócio da Inseed é descobrir e fazer crescer as pequenas empresas criadas por professores e pesquisadores das universidades nacionais – que muitas vezes possuem escondidas pérolas de novos conhecimentos, processos e técnicas para diversas áreas. Depois que essas empresas crescem a Inseed revende sua participação – com lucro, claro. Em entrevistas à NEGÓCIOS, Alves explica essa opção, critica a falta de integração entre universidades e mercado no Brasil e afirma que investir em inovação pode ser um grande negócio.

Por que o Brasil ainda tem tantas dificuldades quando se fala em incentivo à inovação?
O Brasil ainda está atrás no que se refere ao modelo de inovação mais bem-sucedido no planeta. No mundo todo existe uma geração de jovens acadêmicos fazendo seus mestrados, doutorados e PHDs e produzindo ciência em altíssimo nível. A diferença é que em países como EUA, Coreia, Israel e Europa, essa produção de conhecimentos é integrada com o mercado Academia e sociedade são muito mais próximas do que aqui. O professor da universidade tem empresa, licencia patente, ganha dinheiro, e isso se reverte em diferencial competitivo para o país como um todo. Aqui a maior parte da pesquisa vai parar em artigos científicos e não em startups. O que precisamos fazer no Brasil e o que propomos na Inseed é isso: levar a ciência das prateleiras da faculdade para o mercado.

Como mudar esse quadro?
Acho que o Brasil tem uma vocação natural para ser um grande produtor de commodities não podemos ficar limitados a querer ganhar dinheiro exportando café em saca, sem nenhum tipo de valor agregado de beneficiamento. Porque senão o acontece o que estamos vendo agora: todo mundo assustado quando Petrobras e Vale entram em crise. Precisamos agregar inovação e tecnologia a esse cenário. Isso se faz aproximando os conhecimentos da academia com o capital de risco. É o que acontece no Vale do Silício, que une aquela moçada empreendedora e as universidades locais como Harvard e MIT aos os fundos de capital de risco que atuam na região.

Existem países que conseguem unir essa vocação para as commodities com a inovação?
Temos vários exemplos. O Canadá sempre teve uma presença forte da mineração na sua economia, mas com um DNA de base tecnológica interessante e uma integração muito forte entre empresas e academia. A Universidade de Toronto, por exemplo, tem uma agência de inovação própria. A Polônia é uma sociedade que enfrentava desafios parecidos com os nossos e se tornou uma economia de mercado com uma forte presença de pequenas empresas de inovação e com uma dinâmica extremamente moderna, que permite abrir o capital das empresas com uma muita facilidade.

A Inseed foca mais em empresas da chamada economia real do que em companhias pontocom. Porquê?
Startups ainda são algo muito associado à internet e às empresas pontocom, mas elas existem em todas as áreas: a química, a biologia, o estudo de materiais. Uma startup precisa de recursos para crescer. Não tem como você desenvolver uma nova molécula na medicina sem dinheiro para pesquisa, por exemplo. Esse empreendedor precisa de fôlego, precisa de capital.

A diferença entre elas é a barreira de entrada. Empresas de internet, como esses aplicativos de táxi, por exemplo, são simples de copiar e tem modelos de negócios que podem ser reproduzidos sem muitas dificuldades. Já para desenvolver um sistema inovador de limpeza de resíduos do solo, por exemplo, é diferente: é preciso pesquisa e um imenso capital intelectual. Até que alguém consiga reproduzir o mesmo sistema, essa empresa tem uma imensa vantagem competitiva baseada em inovação, o que faz com que ela domine seu mercado por mais tempo e gera mais retorno. Chamamos esse segundo tipo como ciência de fronteiras e é aí que queremos atuar. 

Como convencer investidores a colocar dinheiro nessa área?
O investimento de risco tradicionalmente recebe 5% do total que um investidor usa em sua carteira do mercado. É onde ele pode correr um risco maior em troca de um possível retorno mais atrativo. Para diminuir esse risco, apostamos na diversificação. Fundos tradicionais tem uma carteira de três a seis empresas que recebem investimento. Se uma delas vai mal, isso compromete os resultados de todo o fundo. Já nossos fundos investem em 30 a 40 empresas na mesma carteira, o que leva a uma diluição do risco.

Que tipo de empresas vocês buscam para receber investimento?
Buscamos empresas com esse perfil de inovação na área acadêmica. São empresas ainda na sua fase inicial, que já saíram do papel mas ainda não decolaram por falta de capital. O investimento muda tudo: profissionaliza o tipo de executivo que vai trabalhar nessas empresas, muda a relação dela com gestão, estrutura interna e formas de controle de gasto, muda a relação do empreendedor com o capital. Até porque esse empresário não tem o mesmo perfil que a meninada das empresas pontocom, que já nasce com um plano de negócios debaixo do braço. É normalmente um acadêmico, que ainda está aprendendo a ver o capital de risco como uma possibilidade de expansão. O retorno é muito bom. No caso do nosso fundo Criatec, por exemplo, investimos em 36 empresas que faturavam pouco ou nada. Hoje, poucos anos depois, elas em conjunto faturam R$ 200 milhões.

Porque vocês decidiram concentrar o fundo mais novo na área de meio ambiente?
O meio ambiente é onde devemos concentrar esforços porque nos últimos 100 anos triplicou a população do mundo. Não temos planeta suficiente para todo mundo, então vão ter que surgir empreendedores e inovadores que criem métodos para a gente equilibrar essa equação. É sem dúvida a área que mais vais concentrar as demandas da sociedade daqui para a frente. A crise hídrica atual é a melhor prova disso.

A falta d’água pode abrir novas oportunidades na área de inovação?
Sem dúvida. A gente vê países como Israel, que não tem água e se tornou um especialista em fazer a dessalinização da água do mar. A inovação se torna o único caminho para que países assim sobrevivam, porque ela responde a demandas da sociedade. Se a nossa nova demanda forte passa a ser um uso mais racional da água, é nessa direção que a inovação e o empreendedorismo vão seguir.

Nosso fundo mais recente, por exemplo, está investindo em uma empresa que vai revolucionar o jeito como a indústria têxtil usa a água. Hoje é um consumo muito intensivo: para que um quilo de algodão possa ser processado são necessários 100 litros de água. Todo o processo de tratamento e preparação consome muita água e muita química. Essa empresa vai reduzir tudo isso substancialmente, usando processos biológicos que requerem um uso bem menor desses dois componentes. Isso tem um impacto direto no consumo de água e é exatamente o tipo de inovação que devemos buscar. 

Qual o principal problema que você vê nos empreendedores que se candidatam a receber investimento?
Nós brasileiros nos especializamos muito em operar com restrições de grana. Com o crédito caro por aqui, a gente sempre optava pelo menor custo. Na prática, isso significa que a gente contratava um estagiário para cuidar do departamento comercial porque não tinha dinheiro pra um profissional mais qualificado. Isso por um lado é bom porque a gente aprendeu a fazer mais com menos, mas é muito pernicioso sob o aspecto da preparação do negócio para crescer. Quando chego para um empreendedor e pergunto o que ele faria se não tivesse restrição financeira, ele não sabe o que responder. Ele trava. Muito precisam de uns dias para mudar a perspectiva e passar as olhar as oportunidades de um jeito mais favorável.

Dentro da área de inovação existe algum setor que seja mais perigoso para empreendedores e investidores?
Não é exatamente perigo, mas existe um setor que passa por uma euforia muito grande e que a meu ver exige cautela. É o caso dos negócios pontocom, que sofrem do que eu chamo de princípio autofágico, ou seja, a tendência de devorar a si próprio. Eles fazem sucesso, crescem muito rapidamente e geram uma multidão de imitadores. Essas empresas acabam pulverizando o mercado e afetando o sucesso de todos, que acabam morrendo. Não é que seja um setor ruim, mas ele não é feito só de sonhos e sim de muitos desafios. A maior parte das empresas dessa área ainda busca sustentabilidade a longo prazo.

Por outro lado, quais são os segmentos mais promissores para investimentos em inovação?
Tem um conjunto de cinco áreas-chave que acompanhamos mais de perto. Eles receberam o apelido de exportadores do futuro: novos materiais, biotecnologia, tecnologia da informação, agronegócio e nanotecnologia. O Brasil tem competitividade e aptidão para participar disso tudo. Por exemplo, porque não desenvolver aqui dentro tecnologias de materiais para a cadeia de óleo e gás ao invés de importar isso de empresas dinamarquesas, como estamos fazendo hoje. Nós já temos exemplos bem-sucedidos no Brasil. Os tablets usados pela Polícia Civil de São Paulo são feitos aqui em Minas Gerais. Temos essa coisa do jeitinho, mas a gente sabe fazer com inovação e tecnologia também.  O país tem tudo para ser um dos líderes nesse mundo de inovação. Se fizermos tudo certinho, o céu não é o limite.

Revista Época Negócios