Impunidade gera crimes de guerra, diz a ONU

By | 23/06/2015

Beirute. Em um relatório que apontou a possibilidade de que Israel e grupos armados palestinos cometeram crimes de guerra no conflito do ano passado entre forças israelenses e a facção radical Hamas, uma comissão de inquérito das Nações Unidas pediu, ontem, o fim da impunidade em ambos os lados.

Mecanismos de culpabilidade, de acordo com o texto da ONU, serão um fator decisivo para que ambas as partes não entrem em uma nova rodada de hostilidades.

O documento foi divulgado após um ano de investigação, condenando Israel pelos ataques a áreas densamente povoadas e o Hamas pelo disparo de foguetes contra Jerusalém durante mais de um mês de guerra em 2014.

"O fato de que Israel não revisou sua prática de ataques aéreos, mesmo após o horrendo efeito em civis tornar-se evidente, levanta a questão de se isso foi parte de uma ampla política que foi ao menos tacitamente aprovada pelos níveis mais altos do governo", diz a nota da ONU.

A guerra em Gaza causou, segundo as Nações Unidas, a morte de 2.251 palestinos, entre eles 1.462 civis. Em Israel, houve 67 soldados e seis civis mortos. O relatório foi redigido por investigadores independentes e chefiado pela americana Mary McGowan Davis.

Ambos os lados negam ter cometido violações durante o conflito. Israel divulgou, anteriormente, seu próprio relatório sobre a guerra, e tem nos últimos dias realizado intensa campanha para desqualificar o trabalho dos investigadores da ONU.

Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, afirmou que esse documento redigido pelas Nações Unidas é uma "perda de tempo".

Outra linha de argumentação do governo israelense é repetir que o Conselho de Direitos Humanos da ONU tem um viés contrário e uma obsessão em relação a Israel.

O inquérito era inicialmente liderado por William Schabas. Ele renunciou à função após protestos do governo israelense, devido a seu trabalho de consultoria para a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

O Hamas, por sua vez, afirma que suas ações durante o conflito foram motivadas pela defesa do território palestino contra agressões israelenses -o que não dá conta da execução de palestinos por essa facção durante o embate, acusados de ter colaborado com Israel.

Para David Benjamin, ex-conselheiro legal do Exército israelense para a faixa de Gaza, o relatório não traz nenhuma prova conclusiva de crimes de guerra, apoiando-se em informações de segunda mão. "Sempre haverá problemas enquanto o Hamas utilizar construções civis como estruturas militares", disse à reportagem. "Acusam Israel de atacar sem motivo, mas essa não é a política do Exército".

O problema, segundo Benjamin, é que as informações que justificam os ataques são de Inteligência e não podem ser compartilhadas com a comunidade internacional.

O texto do relatório divulgado ontem também critica Israel pelo contínuo bloqueio a Gaza. Israel retirou seus colonos desse estreito de terra em 2005, mas ainda mantém o seu controle desses arredores, além de impor restrições navais.

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