Gorbachev: assassinato de Nemtsov é uma tentativa de desestabilizar a Rússia

By | 28/02/2015
Boris Nemtsov  (Foto: Getty Images)

O último presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, afirmou neste sábado (28/02) que o assassinato do líder opositor liberal Boris Nemtsov é uma tentativa de desestabilizar a situação na Rússia. "É uma tentativa de complicar a situação, talvez inclusive de desestabilizar a situação no país, de agravar o confronto", disse à agência "Interfax" Gorbachev sobre o assassinato do líder opositor, de 55 anos, perpetrado na noite passada perto do Kremlin.

O ex-líder pediu que não sejam tiradas conclusões sobre os autores do assassinato, já que ainda é muito cedo para isso. "O crime afeta a todos. Boris tinha, claro, suas peculiaridades, mas era uma pessoa de verdade. Eu estou muito afetado", disse Gorbachev.

Para a veterana defensora dos direitos humanos Liudmila Alexeyeva, o assassinato de Nemtsov foi claramente político. "Sua única ocupação era a política. Como político era valente e brilhante. É uma tragédia. Foi um assassinato político, não resta nenhuma dúvida", disse Alexeyeva.

O veterano político, número dois do governo russo em 1998, durante a presidência de Boris Yeltsin, foi baleado dentro de um carro branco quando passava pela chamada Grande Ponte de Pedra, a poucas centenas de metros do Kremlin, acompanhado de uma jovem procedente da Ucrânia, informaram as agências russas.

A oposição russa cancelou neste sábado (data local) a passeata de protesto prevista para amanhã em Moscou para exigir o fim da ingerência russa no conflito da Ucrânia. "Tomamos a decisão de cancelar a marcha anticrise prevista para o dia 1º de março em Maryino (bairro da periferia da capital russa) por causa do incidente. Nesse dia realizaremos uma passeata funerária no centro de Moscou", anunciou Mikhail Kasianov, um dos opositores mais próximos de Nemtsov.

Repercussão
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, qualificou neste sábado de "provocação" o assassinato. "Ainda é muito cedo para tirar conclusões sobre a morte de Boris Nemtsov, mas já se pode dizer com 100% de segurança que se trata de uma provocação", afirmou Peskov em declarações ao canal de televisão internacional russo "RT".

Ontem, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, exigiu à Rússia uma investigação rápida e imparcial sobre o assassinato do ex-vice-primeiro-ministro e líder da oposição extraparlamentar russa, Boris Nemtsov. "Condenamos este brutal assassinato e instamos o governo russo a efetuar uma investigação rápida, imparcial e transparente sobre as circunstâncias deste crime e a garantir que os responsáveis sejam levados perante a Justiça", disse Obama, segundo um comunicado da Casa Branca.

Russos homenageiam Nemtsov, opositor russo assassinado (Foto: Agência EFE)

"Era um defensor incansável dos direitos de todos os cidadãos russos. Eu sempre admirei sua valente dedicação para lutar contra a corrupção na Rússia e sua disposição a compartilhar seus pontos de vista quando nos encontramos em Moscou em 2009", comentou Obama. "O povo russo perdeu um dos mais dedicados e eloquentes defensores de seus direitos", acrescentou o presidente americano.

Já o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, se mostrou consternado e "em estado de choque" após tomar conhecimento do assassinato do líder da oposição extraparlamentar russa, Boris Nemtsov. "É um choque. Boris morreu. É difícil de acreditar. Tenho certeza que os assassinos serão punidos. Cedo ou tarde", escreveu o líder ucraniano no Twitter.

O primeiro-ministro ucraniano, Arseni Yatseniuk, qualificou, por sua vez, o veterano político de oposição, de 55 anos, como um autêntico patriota da Rússia e um grande amigo da Ucrânia. "Um patriota da Rússia e ao mesmo tempo um grande amigo da Ucrânia. Assim era e assim ficará para sempre em nossa memória Boris Nemtsov", escreveu Yatseniuk no Twitter.

Líderes russos
Os correligionários do líder opositor russo, Boris Nemtsov, assinalaram que a atividade política do ex-vice-primeiro-ministro russo serviu como motivação para o crime."Trata-se de um assassinato político. O assassinato está relacionado com a atividade opositora de Boris. Mataram um dos personagens mais brilhantes da oposição russa, para aterrorizar", disse Ilia Yashin, conhecido ativista do movimento opositor Solidariedade.

Yashin, militante do movimento político e social do qual Nemtsov era co-presidente, acrescentou que o veterano opositor "recebia periodicamente ameaças de morte nas redes sociais, mas não dava importância para as mesmas, porque acreditava que se quisessem, o matariam".

O co-presidente junto com Nemtsov do Partido Republicano da Rússia, Mikhail Kasyanov, considerou o assassinato como uma "represália à liberdade, à verdade, por sua avaliação responsável do que está acontecendo" na Rússia."Poderíamos imaginar que em pleno século XXI, um líder da oposição seria baleado no centro da cidade? É um assassinato demonstrativo, chocante", disse Kasyanov à agência "Interfax" no local da tragédia, para onde se deslocou logo após saber da notícia.

A defensora dos direitos humanos na Rússia, Ela Pamfilova, enquadrou o assassinato de Nemtsov no mesmo contexto que as mortes da jornalista opositora Anna Politkovskaya e do jornalista Vlad Listyev, assassinado na década de 1990. "Não é só um tiro nas costas de Nemtsov. É um disparo nas costas da Rússia", disse Ela, que conhecia há duas décadas o político assassinado no centro da capital russa.

 

Revista Época Negócios