Gestão pública tem jeito

By | 30/06/2015
Coluna Enxuga aí - tarja (Foto: Rodrigo Buldrini)
José Roberto Ferro, presidente e fundador do Lean Institute Brasil (Foto: Divulgação)

Sabemos o quão precária é a administração pública no Brasil. Baixa qualidade dos serviços oferecidos, muita gente com baixa produtividade, má vontade de colaboradores desmotivados, falta de foco e respeito ao cliente-cidadão, custos excessivos, desperdícios por todos os lados etc.

Essa situação parece ser comum e permear praticamente toda a administração e serviços públicos no país. Porém, há esperança de mudança.

Tive a oportunidade de testemunhar o esforço inicial que alguns servidores públicos estão fazendo ao, por si sós, indignarem-se com a qualidade dos serviços.

São servidores que não ficam apenas reclamando ou culpando as más condições de trabalho, que, embora reais, não podem ser um obstáculo intransponível. São médicos que apresentaram no II Fórum Lean Rio os experimentos iniciais de implementação do sistema lean em um hospital municipal da cidade do Rio de Janeiro e suas primeiras iniciativas de melhorias.

Eles focaram em alguns problemas simples, mas com grande impacto sobre a vida dos pacientes. E começaram a resolver esses problemas. Mudando a forma de gestão, conseguiram, por exemplo, diminuir a excessiva lotação de sala de espera em serviço de pronto-atendimento, eliminando macas espalhadas pelos corredores, esvaziando salas e eliminado filas. Outra melhoria foi quanto à disposição e organização de alimentos para pacientes dessa mesma unidade.

Algumas soluções simples foram implementadas, principalmente mudando a maneira como as coisas são feitas e o trabalho é organizado, com pouquíssimo investimento. A ação foi fruto de médicos servidores públicos comprometidos efetivamente com seus pacientes.

Foi em apenas uma unidade. É pouco ainda. Mas o que isso revela é que tem muita gente séria, comprometida e inconformada com a má qualidade no setor público. São os heróis e as heroínas de hoje, ainda desbravadores e pioneiros, que procuram atender o melhor possível a população-cliente que paga por esses serviços por meio dos impostos. A reação dos participantes do evento à apresentação foi de profunda admiração e respeito a essas iniciativas.

Essas mudanças, felizmente, fazem parte da política da direção da entidade que administra os serviços municipais de saúde no Rio e que está buscado implementar a filosofia e práticas lean em suas operações e serviços – uma situação rara no serviço público brasileiro. Mas isso só acontece na prática porque existem esses heróis que se desdobram e se esforçam.

Temos visto escândalos todos os dias. Isso só reforça que, na visão dos altos escalões governamentais, o setor público brasileiro só deve servir aos partidos e grupos políticos que se apropriam da administração para atender seus propósitos de manutenção do poder e de privilégios, tendo superfaturamentos e cargos ocupados por critérios políticos, com gente empregada não ligada aos objetivos e propósitos do setor público sob o ponto de vista de seus clientes, os cidadãos.

Devemos lutar para que isso melhore: que haja meritocracia e que os recursos sejam usados para os propósitos reais que deveriam ser. Ou seja, que a administração pública esteja a serviço do público, que paga os impostos, e não de partidos ou grupos que se apropriam deles. Mas essa é uma luta árdua e difícil que encontra barreiras no sistema político existente e na própria cultura e valores desses órgãos e empresas após décadas de apropriação indevida.

A filosofia lean consegue capturar a atenção e engajamento de pessoas por sua simplicidade e por depender de quem está na linha de frente, efetivamente fazendo o trabalho. Esse é o caminho: experimentar com novos métodos de trabalho. Aprender e melhorar.

Só reclamar e esperar que os dirigentes façam algo diferente não vai nos levar a uma situação melhor. Começar a mudar as coisas na linha de frente, onde cidadãos chegam para serem atendidos, é o caminho certo para a melhoria.

Comentei, em outras oportunidades, sobre as iniciativas em lean nos setores públicos de outros países, como nos EUA, nos estados de Colorado, Ohio e Washington, bem como nos Países Baixos e em Melbourne, na Austrália. São casos de governos que estão buscando otimizar as operações dos serviços públicos com a filosofia lean. Não tem sido fácil mudar a cultura das organizações desses países. E não vai ser fácil no Brasil também. Mas apenas esperar por novas eleições, novos partidos, novos governantes também não vai resolver.

A administração pública tem jeito! É possível melhorar muito o desempenho dos serviços públicos desse modo. Com isso, tornaremos cada vez mais difícil a vida dos dirigentes não comprometidos com os cidadãos, não permitindo que façam o que querem e se apropriem da gestão pública para atender a seus próprios objetivos.

Não podemos só esperar soluções de cima. Esperamos que iniciativas desse tipo se multipliquem na linha de frente do setor público.

(José Roberto Ferro é presidente do Lean Institute Brasil, escreve às terças-feiras)

Revista Época Negócios