Frei Hermínio Bezerra: O sentido das palavras

By | 28/12/2015

Na coluna de hoje, na qual eu recupero algumas palavras que faltaram num primeiro momento, eu indico: esclerodactilofobia, palavra que eu proponho desde 2007; rameira, com sua curiosa origem em Portugal; salário, que perdeu totalmente a sua intrínseca relação com sal; a moderna palavra de origem chinesa taikonauta, que logo será comum, e a tríade: empatia, antipatia e simpatia

Esclerodactilofobia

S – m. Do grego eskleros = duro, + dáctilos = dedo + fobia = medo. É provável que você nunca tenha visto esta palavra que indica "medo de dedo duro". É uma doença que atacou a muitos brasileiros no tempo do governo militar. O governo tinha agentes secretos que atuaram desde 1964 até o final da década de 1970. Eu, como jovem padre, de 1973 a 1976 cheguei a receber agentes, que após a missa vinham à sacristia de terno e gravata mostrando – como que envergonhados – uma carteirinha da Polícia Federal que cabia na palma da mão e advertia: tal assunto, tal informação não deve ser repetida, pois o senhor será intimado a depor no DOI-CODI. Passados alguns meses a visita se repetia com outro agente fazendo a mesma advertência.

Rameira

S. F. Veio de ramo + a terminação -eira que designa quem exerce uma atividade (como enfermeira, cozinheira). Em Portugal do século XV, se uma taberna queria mostrar que oferecia mulheres para serviços sexuais remunerados, pendurava ramos de árvore no lado de fora da porta. Naquele tempo romântico e ingênuo, era um sinal mais sutil que pendurar um cartaz anunciando: "Temos prostitutas".

Salário

S. M. Do latim salarium, salárii = soldo, estipêndio. A palavra latina designava inicialmente a quantidade de sal que cada soldado romano recebia como pagamento pelo serviço militar, pois o sal era produto caro. Depois o termo passou a indicar o dinheiro pago aos soldados. Posteriormente salário passou a designar o dinheiro pago pelo trabalho mensal de um trabalhador. A palavra perdeu de todo a sua relação inicial com sal. De certo modo ela mudou de sentido.

Taikonauta

S. M. Do mandarino, taikong = espaço + nauta = navegante em grego e latim. Palavra criada em 1999, pelo chinês Chiew Lee Yih. No futuro proximo essa palavra será muito usada, pois a China – trabalhando em silêncio – ja é a terceira potência espacial. Os gregos na antiguidade fizeram longas viagens de navio pelo limitado mundo conhecido de então e deram o nome de "argonautas" aos seus exploradores marítimos. Em 1959 os russos iniciaram a exploração espacial e chamaram de "cosmonauta", um russo no espaco. Logo os americanos os seguiram, mas denominaram "astronauta" um americano no espaco.

Tratante

Adj. Do latim, tractare = tratar. Sendo tratante o particípio presente desse verbo. Literalmente a palavra significa: pessoa que trata com alguém sobre alguma coisa, contratando um serviço, por exemplo. Camões usou o termo no sentido de "portar-se com alguém": "Com palavras de desonra / Não se há de tratar quem ama (Amphitriões, ato 4, cena 1). No sentido inicial da palavra, tratante era a pessoa que tratava dos negócios de gente nobre e rica. Era um representante comercial e financeiro. Como as duas pontas dos negócios não se falavam, o tratante começou a tratar mais de si mesmo, aumentando seu ganho nas intermediações sem que o que ele representava soubesse. E, assim, o tratante adquiriu o sentido de astucioso, desonesto, pilantra, trapaceiro? que tem por hábito prometer e não cumprir.

Empatia

S. F. Do grego en = no, dentro de, + pathós = sentimento. A palavra foi criada em 1904 por Theodor Lipps, o primeiro filósofo alemão que apoiou publicamente as ousadas teorias de um jovem e desconhedido médico, Dr. Sigmund Freud. Ele uniu dois termos gregos e criou a nova palavra empatia = experimentar o mesmo que o outro sente. Em alemão o termo é traduzido por Einfühlung, a partir do verbo eifühlen = sentir-se no lugar do outro. Essa palavra faz parte da tríade da comunicação e do entendimento entre as pessoas. As outras são simpatia, palavra criada em 1409 pela junção dos termos gregos: syn = com, + pathós. A terceira é a antipatia, que foi criada em 1542 a partir da junção dos termos gregos: anti = contra, + pathós. A antipatia é um sentimento contra algo ou alguém. Ela se manifesta por uma cara fechada e atos de intolerância. A simpatia é sentir com a pessoa, aceitá-la, acolhê-la. Ela se manifesta por uma expressão facial alegre e por gestos de acolhimento e de aceitação do outro. Muita gente não percebe a diferença entre empatia e simpatia e por isso usa um termo como sinônimo do outro, quando não é verdade. Empatia é muito mais do que simpatia. Por isso, uma pessoa antipática, pode, num determinado momento, ser empática quando compreende o outro a ponto de pôr-se no lugar dele, mesmo sem deixar de ser antipática.

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