Ex-presidente da Eletronuclear nega ter recebido propina de construtoras em obras de Angra 3

By | 31/07/2015
O presidente licenciado da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva (Foto: Agência O Globo)

O presidente licenciado da Eletronuclear Othon Luiz Pinheiro da Silva negou, em depoimento à Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (31/07) que tenha recebido propina das construtoras que foram contratadas para fazer obras na usina Angra 3. Ele disse que a Aratec, empresa que foi apontada pelo Ministério Público Federal (MPF) como destino de R$ 4,5 milhões de repasses ilegais, havia sido repassada à sua filha e ao seu genro. De acordo com a versão de Othon, o casal foi contratado pelas empreiteiras para fazer serviços de tradução e engenharia. Embora a PF não tenha pedido a prorrogação da prisão de Othon, o Ministério Público Federal (MPF) pediu que a Justiça decrete a prisão preventiva dele e do executivo da Andrade Gutierrez Flávio Barra. Os dois foram presos na terça-feira, durante a 16ª fase da Operação Lava-Jato.

Othon disse à polícia que ficou “profundamente consternado” com as acusações de que recebeu propina, pois, nas suas palavras, “nunca agiria dessa forma”. Em seu depoimento, o vice-almirante afirmou que “possui conhecimento que lhe permitiria ganhar muito mais do que os valores que lhe acusam de ter recebido”. Ele alega que, em 2005, passou o controle da empresa Aratec para sua filha Ana Cristina da Silva Toniolo, que queria trabalhar com tradução. Segundo a versão de Othon, o pagamento de R$ 4,5 milhões feitos por Andrade e Gutierrez à Aratec são anteriores aos contratos de Angra 3 e seriam o pagamento desse trabalho de Ana Cristina ou do marido dela, Sérgio Toniolo, que é engenheiro.

Para os investigadores da Lava-Jato, antes de chegar à Aratec, o dinheiro das empreiteiras passava por outras empresas, que foram acusadas de ser de fachada. Othon também foi questionado sobre essas empresas. Ele disse que foi dono de uma delas, a Deutschebras em 1997, criada para desenvolver sistemas de segurança, mas que a vendeu três anos depois. Othon confirmou que a empresa chegou a participar de concorrências da Eletrobras. Ele disse que também conhece o dono da CG Consultoria, com quem já desenvolveu trabalhos no passado. Da JNobre ele não se recorda, mas sugeriu que os investigadores procurem Ana Cristina, que pode justificar os repasses recebidos pela Aratec.

Questionado porque só deixou o quadro societário da Aratec em fevereiro deste ano, Othon alegou que estava desenvolvendo um projeto de um novo tipo de turbina e que, quando estivesse pronto, iria patenteá-lo em nome de uma nova empresa. Othon disse, ainda, que se afastou da presidência da Eletronuclear em fevereiro, por uma sugestão de uma auditoria externa contratada pela Eletrobras, que tem ações na bolsa de Nova York. Afirmou também que ficou apenas com a aposentadoria para custear o tratamento da mulher, que sofre de Mal de Alzheimer.

Othon e Barra tiveram uma prisão temporária de cinco dias autorizada pela Justiça na terça-feira. Como a PF não pediu a prorrogação dessa prisão, o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, pode determinar a soltura dos dois presos. Eles são investigados em um processo que apura irregularidades e pagamentos de propina pelo consórcio Angramon nas obras da usina Angra 3.

Em relatório parcial, a delegada da PF Erika Marena afirma que as medidas de busca e apreensão e o depoimento dos envolvidos foram suficientes para atender o pedido inicial de prisão temporária por cinco dias. Segundo ela, não foi possível ainda concluir pela efetiva ocorrência de pagamento de propina na obra, como informou o delator Dalton Avancini, ex-presidente da Camargo Corrêa. A delegada afirma que ainda não há novos indícios que reforcem as provas contra Othon Silva e Barra, e que a soltura de ambos não deve comprometer a continuidade das investigações.

Othon Silva, ainda de acordo com o relatório, entregou documentos que demonstrariam que ele agiu de maneira imparcial na posição de presidente da Eletronuclear, entre eles pleitos do consórcio Angramon que foram indeferidos.

Revista Época Negócios