Entenda o drama atual da nossa indústria automobilística

By | 25/02/2015
Coluna Enxuga aí - tarja (Foto: Rodrigo Buldrini)
José Roberto Ferro, presidente e fundador do Lean Institute Brasil (Foto: Divulgação)

A indústria automobilística vinha tendo excelentes resultados que geraram um substancial aumento da motorização (número de veículos por habitante) da sociedade brasileira.

Mas a situação mudou radicalmente. Os principais indicadores do desempenho recente da indústria automobilística brasileira têm sido extremamente negativos. Senão vejamos alguns deles.

A produção e a demanda estão em substancial queda. Em 2014, o volume de produção caiu cerca de 15% em comparação a 2013, enquanto o mercado encolheu cerca de 8% nesse mesmo período. Os indicadores das primeiras semanas de 2015 indicam um desempenho com declínio mais intenso ainda.

Com isso, o Brasil caiu no ranking mundial, indo da 6ª posição no mundo em volume total de produção, após China, EUA, Japão, Alemanha e Coreia do Sul, para a 8ª posição em 2014, sendo superado pela Índia e pelo México.

Um volume substancial dos investimentos em novas plantas e novos produtos está paralisado ou foi adiado. A enorme quantidade de novas empresas que se instalaram no país nos últimos anos, em grande medida forçadas por políticas protecionistas e restritivas do Brasil, tem pouca viabilidade econômica de recuperação dos investimentos nos próximos anos.

A maioria das montadoras e de empresas de autopeças em operação atualmente tem programas de demissões voluntárias e férias coletivas, antes de se verem obrigadas a fazer cortes substanciais de pessoal.

E praticamente todo o setor tem enfrentado prejuízos financeiros consideráveis nesse período de queda.

O privilégio aos acordos comerciais com o Mercosul acabou gerando políticas erráticas, sem visão de futuro e, pior, sempre com um viés altamente protecionista forçado – em grande medida, pelo maior parceiro regional, a Argentina. Nunca houve a preocupação séria em criar condições para uma indústria regional que fosse competitiva globalmente. Houve sim políticas comerciais atuando mais com base em joguinhos protecionistas conjunturais.

No fundo, a política comercial brasileira tem os mesmos fundamentos protecionistas que os parceiros argentinos. Tanto que o acordo comercial com México, com grande potencial de crescimento para os dois lados – Brasil e México – encontra-se em ponto morto, sempre com instabilidades e incertezas.

O crescimento do mercado nos anos recentes esteve baseado em uma combinação virtuosa de crescimento econômico e da renda, baixo desemprego, redução de juros e facilidade de financiamento, redução, ainda que pontual e oportunista, de impostos, entre outros fatores.

Praticamente todas essas condições estão agora exatamente na posição contrária. Ou seja, estamos em um momento em que há um círculo vicioso (recessão, juros altos, altos impostos, emprego em ameaça) que leva para baixo o crescimento da indústria.

Separando as condições macroeconômicas de taxas de juros e crescimento do PIB, a subida dos impostos para o setor sob a ótica de “acabar com a renúncia fiscal” continua sendo um grande equívoco ao forçar os consumidores brasileiros a pagar os mais altos impostos do mundo para um país produtor de veículos. E será possivelmente inócua com a queda dos volumes de vendas que não permitirá substancial incremento de arrecadação.

As consequências sobre a indústria brasileira são muito nefastas. Elevou-se a capacidade ociosa, será muito difícil manter ritmo de lançamento de novos produtos, prejudicando a capacitação de engenharia local, diminuirá o volume de empregos e de impostos arrecadados.

Uma alternativa possível seria ampliar os volumes de exportação, o que exige grandes esforços e requer produtos competitivos produzidos em ambiente de custos competitivos, difícil na realidade atual brasileira, apesar das mudanças cambiais recentes.

Uma das poucas exceções nesse ambiente hostil é a situação da montadora Toyota. Sempre cautelosa e cuidadosa em suas políticas de investimento, nunca aderiu plenamente às políticas oficiais. Com uma visão de equilíbrio entre suas exportações e importações, uma política de crescimento que privilegia a qualidade dos produtos e serviços, e não prioritariamente o incremento dos volumes, tem garantido bons resultados financeiros e sua capacidade de produção plenamente ocupada no momento, levou-a a decidir expandir a sua capacidade produtiva.

A Toyota não segue diretamente, quando é possível, as políticas do governo. Se o governo seguisse a política e filosofia de negócios da Toyota de eficiência, produtividade, qualidade, foco nos clientes e competição, a indústria automobilística brasileira não estaria em queda, e, ao contrário, teria uma visão mais promissora e um conjunto de políticas que a levaria a um futuro cada vez melhor.

(José Roberto Ferro é presidente do Lean Institute Brasil, escreve às terças-feiras)

Revista Época Negócios