CPMF saiu do texto do Congresso do PT por medo de se falar de imposto, diz presidente do partido

By | 13/06/2015
 O ex-presidente Lula, a presidenta Dilma Rousseff e o presidente do partido, Rui Falcão, durante o 5º Congresso Nacional do PT. (Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula/Fotos Públicas)

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, criticou a retirada da proposta da volta da CPMF do texto final da resolução do 5º Congresso do PT e disse que a decisão foi tomada por medo. "As pessoas têm medo de falar de imposto, por isso tiraram do texto. Eu prefiro fazer o debate, enfrentar, explicar, mas é uma decisão que eu respeito, a decisão da maioria", afirmou.

Ao longo do encontro, o dirigente disse diversas vezes a jornalistas ser favorável ao chamado imposto do cheque e afirmou que ele poderia voltar de forma a tributar apenas as camadas mais ricas da população. Falcão repetiu que é um tributo limpo e transparente para financiar a saúde."Toda vez que alguém fala de imposto, todos ficam com pé atrás", lamentou ao defender novamente que o País tem uma política tributária injusta que penaliza os trabalhadores e a classe média.

Falcão disse, contudo, que apesar de não ter entrado claramente na resolução, a discussão da volta da CPMF continuará no partido. "É preciso inverter essa questão tributária. A CPMF é um imposto que você pode concentrar no topo, pegar 5 ou 6 milhões de pessoas pagando, o que propiciaria grandes recursos para financiar a saúde. Esse debate vai prosseguir independentemente de estar na resolução."

Nesta sexta-feira (12), o ministro da Saúde, Arthur Chioro, revelou a jornalistas que acompanhavam o congresso da legenda que negociava com governadores e prefeitos a volta da contribuição em um novo modelo para financiar o setor. Chioro, no entanto, foi logo desautorizado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o PT suprimiu a referência à CPMF da Carta de Salvador – prévia da resolução do congresso partidário. Falcão negou que falte coragem ao PT para pautar mudanças na economia e lembrou que ficaram na resolução as sugestões para criação de impostos sobre grandes fortunas e heranças. "Coragem pra nós não falta", afirmou.

Militância

Falcão disse, em coletiva de imprensa após o encerramento do congresso da legenda, que a maior vitoriosa do encontro foi a militância petista e não a presidente Dilma Rousseff, como perguntaram os jornalistas. "A presidenta não estava sendo julgada nesse encontro", disse Falcão. "Aliás, ela disse claramente de que lado ela está no seu discurso, ela é do PT", completou ao destacar a participação de Dilma na abertura do congresso petista, na quinta-feira.

Falcão elogiou o evento, dizendo que houve polarização dos debates, como já é tradição no PT. "Houve muita torcida, muitas discussões polarizadas e, ao final, a grande unidade que faz inveja a outros partidos, mas saímos com mais disposição para continuar mudando o Brasil e o PT", resumiu.

O dirigente refutou que o partido tenha feito um encontro esvaziado ou com poucas decisões de importância para o futuro da legenda. E negou ainda que a resolução aprovada no congresso seja branda em críticas ao governo Dilma e ao ajuste fiscal coordenado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Para Falcão, conseguiu-se chegar a um texto construtivo e que não seja maniqueísta. "Houve críticas sim à política econômica, embora não dessa forma de 'fora Levy', personificando críticas no ministro ou na presidência da República", argumentou. Ele citou a pauta de crítica ao patamar de juros altos na economia e a sugestão de política cambial que estimule exportações como exemplos das críticas construtivas que partiram do PT no encontro.

O presidente do PT disse na coletiva que o partido não enfrenta a "maior crise de sua história", como diz a imprensa. Mas afirmou, ao ressaltar a importância do congresso no encerramento para os delegados e militantes, que "o PT não será mais o mesmo e vai ter que mudar".

Apesar da fala de Falcão, a presença de Dilma no encontro somada à articulação coordenada pelo ex-presidente Lula nas últimas semanas abafou o tom de críticas que circulavam na base partidária contra a política econômica. Mesmo as faixas de Fora Levy praticamente sumiram, houve uma no fundo do salão na abertura do encontro. No texto final, houve tentativas de incluir críticas mais diretas ao "neoliberalismo recessivo" promovido pelo governo, mas elas não prosperaram e ficaram atenuadas.

Vaccari

No encerramento do 5º congresso do partido, Falcão disse aos delegados e militantes petistas que o ex-tesoureiro João Vaccari, preso em meio às investigações da Lava Jato, "nunca se apropriou de um centavo". Na coletiva de imprensa, o dirigente reforçou a defesa. "O Vaccari não é culpado, está sendo preso injustamente. Há uma tentativa de criminalizar o PT através da prisão dele", afirmou.
"Ele cumpriu rigorosamente o que existia no País e existe até hoje, que é coletar recursos para o partido através de doações eleitorais", completou, afirmando ainda que houve uma "manipulação terrível" nas evidências que levaram à prisão do ex-tesoureiro.

Revista Época Negócios