Com aquisição da TAP, Neeleman leva rotas lucrativas e estrutura deficitária

By | 11/06/2015
Azul Linhas Aéreas (Foto: Agência O Globo)

 

A vitória na aquisição da TAP, anunciada hoje, coloca um pé – ou uma asa – de David Neeleman, dono da Azul, no continente europeu. Segundo analistas, a companhia aérea lusa é a empresa internacional com maior número de voos semanais entre Brasil e o Velho Continente. Ou seja, uma grande porta de entrada para os brasileiros que visitam a Europa. São 84 voos semanais e um total de 1,8 milhão de pessoas que cruzam o Atlântico por mês, segundo comunicado da Azul.

Além de agregar um novo volume de passageiros, as rotas internacionais tendem a ser bem mais lucrativas do que as domésticas. De um lado, possuem alta ocupação e o preço da passagem atrelado ao dólar; de outro, o custo é quase o mesmo que o de um voo nacional, uma vez que a maior parte do combustível de um avião é usado na decolagem e no pouso, e não durante o cruzeiro. De quebra, voos internacionais também não pagam ICMS.

David Neeleman (Foto: GABRIEL RINALDI / ÉPOCA NEGÓCIOS)

Por outro lado, a TAP é vista como uma aquisição arriscada. A aérea traz consigo uma série de esqueletos no armário – dívidas, custos elevados, problemas de gestão – típicos de uma ex-empresa estatal. Estima-se que sua dívida seja hoje superior a 1 bilhão de euros – cerca de R$ 3,5 bilhões – e uma geração negativa de caixa de 500 milhões de euros. A companhia precisa se uma recapitalização urgente, o que possivelmente envolverá enxugamento de custos, com redução do número de aviões, rotas e empregos. É possível que, antes de voltar a registrar lucro, a TAP ainda reserve uma boa dose de prejuízos e dores de cabeça ao seu comprador.

A própria operação de compra ainda enfrenta incertezas. Um deles, de natureza técnica. Regras da União Europeia impedem que um empresário de fora do continente assuma o controle de aéreas da região. Para superar a legislação, Neeleman teve que montar um consórcio em parceria com o empresário português Humberto Pedrosa, dono do Grupo Barraqueiro, que reúne mais de 20 companhias de transporte. Germán Efromovich, o dono da Avianca derrotado no processo, já ameaçou questionar na Justiça a montagem societária desse consórcio, o Gateway. Uma eventual disputa judicial poderia atrasar e colocar sob risco o negócio.

Outro entrave para a compra da TAP é de natureza política. A negociação da empresa aérea é um dos temas mais quentes do calendário político português, que prevê eleições legislativas em outubro. Caso o Partido Socialista consiga a maioria das cadeiras, seu diretor-geral António Costa poderá ser alçado ao cargo de primeiro-ministro – e ele já se posicional pubicamente contra a operação de privatização da empresa, ameaçando até mesmo cancelar a operação.

A disputa em torno da TAP, aliás, foi uma verdadeira batalha multinacional: Neeleman, nascido em São Paulo, foi criado nos EUA, onde fundou companhias aéreas de baixo custo como a JetBlue e a Morris Air. De volta ao Brasil, criou a Azul e posteriormente comprou a Trip, chegando a um grupo que hoje tem cerca de 150 aviões e apresentou Ebitda – lucro antes dos impostos – superior a R$ 200 milhões de acordo com os últimos dados disponíveis – uma façanha no mercado brasileiro, que registra anos seguidos de prejuízo para as gigantes Gol e TAM. 

Germán Efromovich tem uma trajetória ainda mais rocambolesca: a família Efromovich, judia, emigrou da Polônia para a América do Sul fugindo do nazismo. Germán e seu irmão José nasceram em La Paz, na Bolívia, e seguiram os pais primeiro rumo ao Chile e posteriormente a São Paulo, onde desembarcaram no início dos anos 60. Trabalharam em empregos que iam da venda de enciclopédias até a dublagem de filmes em língua espanhola antes de se aventurar na área de infraestrutura e mais tarde criar o grupo Synergy, que hoje fatura mais de R$ 5 bilhões.

Revista Época Negócios