Brasil pode aceitar embaixador mas continuar criticando Israel, diz cônsul

By | 29/12/2015

As divergências políticas que têm levado o governo brasileiro a adiar indefinidamente sua decisão sobre o pedido de agrément para o novo embaixador de Israel poderão continuar existindo se o Brasil aceitar a indicação, disse nesta segunda (28) o cônsul-geral de Israel em São Paulo, Yoel Barnea.

As declarações de Barnea se inserem num esforço diplomático que o governo israelense tem feito para que o Brasil aceite a indicação de Dani Dayan ao posto em Brasília.

A resistência do governo brasileiro ao nome de Dayan, argentino naturalizado israelense, se deve ao fato de ele ter presidido o Conselho Yesha, que representa os colonos israelenses em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, onde vive, entre 2007 e 2013. O Brasil se opõe aos assentamentos.

"O embaixador israelense representa as posições do governo israelense e não do governo do país para onde ele é enviado. O embaixador que chega aqui ou a qualquer país não tem que estar de acordo com as posições do país que o acolhe", disse Barnea à reportagem.

"Há pontos de vistas em que temos divergências e um deles é essa temática dos assentamentos. O governo brasileiro poderá continuar a ver negativamente uma ou outra posição e a criticá-la."

O cônsul-geral ressalta que seu governo tem a possibilidade de fazer apenas 11 indicações políticas para embaixadas em todo mundo -para o restante, são nomeados diplomatas de carreira- e que Dayan é uma delas. Os embaixadores de Israel nos EUA e na ONU, por exemplo, também são indicações políticas.

"Quando o nosso primeiro-ministro decidiu nomear o Dani Dayan é pela importância que ele outorga às relações com o Brasil, tendo em conta que ele é uma nomeação política", diz, destacando que Dayan tem um relacionamento pessoal com o premiê Binyamin Netanyahu.

"A ideia era de ter um contato direto com o primeiro-ministro para aprofundar as relações."

Barnea reforça a fala de Dayan em entrevista ao Canal 2 da TV israelense no último dia 26, de que, com sua posição, o governo brasileiro está "marcando pessoas" por suas visões políticas.

"Marcar pessoas por suas visões políticas pessoais é incorreto. E na memória coletiva judaica isso é algo com o qual somos muito sensíveis", disse, em referência ao Holocausto, quando judeus tiveram números marcados no braço ao chegarem em campos de concentração.

"Não quero de jeito nenhum comparar com o Holocausto, mas o judeu foi ao longo dos séculos discriminado, por suas origens, sua religião."

O governo brasileiro recebeu o pedido de agrément em agosto e até agora não se manifestou oficialmente. O Itamaraty mantém a política de manter em segredo o trâmite sobre esse tipo de processo.

Barnea reafirmou que seu governo não tem intenção de indicar outra pessoa e que, caso Dayan não seja aceito, pode haver uma "crise no relacionamento".

"E se se desenvolve uma divergência profunda entre os países, isso se repercute a todos os níveis", afirmou, ao ser questionado se uma recusa brasileira poderia atrapalhar parcerias na área de Defesa.

Recentemente, um integrante de alto escalão das Forças Armadas disse que o impasse diplomático poderia atrapalhar a transferência de tecnologia entre os dois países, fundamental em alguns dos contratos militares.

"Não temos intenção de tomar alguma medida de retaliação, mas é lógico que se tem um problema entre os países, isso pode repercutir negativamente sobre as relações bilaterais", disse Barnea.

Ele, contudo, preferiu não rebater as críticas do ex-chanceler e ex-ministro da Defesa brasileiro Celso Amorim de que "está na hora de as Forças Armadas brasileiras reduzirem sua dependência de Israel".

"É uma prerrogativa do Brasil escolher seus fornecedores e respeitamos o ponto de vista do ex-ministro."

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