Bonassi narra derrota do sonho brasileiro

By | 10/01/2016

Está ruim, mas vai ficar pior. É esse o pessimismo presente em "Luxúria", livro que marca a volta de Fernando Bonassi ao romance – um afastamento que ele calcula ser de mais de duas décadas, uma vez que sua última obra com o mesmo fôlego do lançamento de agora foi "Subúrbio", de 1994 (publicou, no meio tempo, um livro juvenil e uma novela, por exemplo).

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É um romance um pouco alienígena no cenário da literatura brasileira contemporânea. Em vez de seguir a tendência confessional, da autoficção, o autor ambiciona algo incomum hoje: fazer uma análise do Brasil.

"A experiência do que é externo à nossa vida, mas que interfere nela com braço de ferro, sumiu um pouco da literatura. Entendi que a história (de ‘Luxúria’) tinha uma importância fora da minha experiência", diz Bonassi.

Assim, o romance traz a história de uma família, moradora de um "bairro novo" da periferia – que remete aos conjuntos habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida -, que resolve construir uma piscina no quintal de casa, iludida com o crédito fácil concedido pelo governo.

Degradação

A partir dessa decisão, os personagens, membros da classe C emergente brasileira, mergulham em uma crise – financeira e humana – que se aprofunda cada vez mais.

Ele próprio criado em uma família de metalúrgicos e exemplo de quem ascendeu de classe, Bonassi expressa no livro profunda desilusão com os rumos do País – e com o projeto desenvolvimentista do PT.

"Há uma degradação da experiência humana. A esquerda governa como a direita. A experiência da esquerda é limitada, porque se restringiu a partilhar o consumo. E a inclusão pelo consumo é só uma etapa da inclusão", afirma o escritor.

"O irônico é que essa massa incluída dessa forma reforça a direita. E gera violência. Não é ‘queremos mais e por isso faremos a revolução’. As pessoas vão começar a se matar, esse é o problema da experiência brasileira. Ela não é politizada, ela é violenta", avalia o escritor e roteirista.

Em "Luxúria", explica o autor, está sua visão de que o Brasil não fez completamente a transição para a democracia desde a ditadura militar.

"Não vejo a menor saída (para o País). Os melhores bandidos tomaram o poder. Os piores ainda virão. A segunda geração de bandidos da direita vai chegar ao Estado, depois do fracasso do projeto da esquerda. Não tenho a menor dúvida. Estou me preparando para uma década perdida", afirma.

Além de refletir sobre a situação da nova classe C, "Luxúria" faz também faz uma reflexão sobre o trabalho – e a exploração do tempo. Seu personagem principal, o chefe da família, operário em uma posição um pouco superior, vê o relógio "andar para trás" sempre que está na fábrica.

Ainda que o livro não seja um relato da vida de Bonassi, é claro que suas experiências também estão ali. Seus parentes metalúrgicos eram como o protagonista: o operário que faz a primeira peça.

Não chega a ser um engenheiro, mas tem um status superior aos demais. E por isso teria uma relação "reacionária" com o emprego.

"Minha experiência do trabalho é muito danosa", diz Bonassi, que chegou a trabalhar por pouco tempo numa fábrica de autopeças. "O cara te chamava na diretoria da fábrica e te deixava esperando duas horas. Que maneira escrota de mostrar que você é inferior!", afirma ele.

Romance

Nos últimos anos, Bonassi tem se dedicado à vida de roteirista de cinema e televisão. Trabalhou em filmes como "Carandiru" (2007) e "Cazuza" (2004), além de seriados para a TV Globo, como "Força Tarefa" e "O Caçador" – estes junto a Marçal Aquino, seu principal parceiro de roteiros.

Bonassi defende, como hoje já ficou comum, que a TV ultrapassou o cinema em termos de experimentação – mas do ponto da estrutura narrativa, e não da inovação poética.

O escritor acredita que o romance ainda é o gênero para experimentação poética – e este segue relevante, a despeito de hoje ser comum dizer que a palavra escrita perdeu relevância para a imagem.

"Fazer o pacto do romance é exigente, mas maravilhoso. Ele continua um campo de originalidade. A experiência literária é muito fundadora do intelectual brasileiro. Digamos que eu seja considerado mais importante por escrever livros, não por fazer filmes".
Livro

Luxúria
Fernando Bonassi

Record
2015, 368 páginas
R$ 40

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