As lições de Tite: liderança com emoção

By | 23/01/2016
Tite jogou em clubes como  o Caxias (RS) e o Guarani, mas se consagrou como técnico (Foto: Levi Bianco/News Free/Folhapress)

Existe uma maneira curiosa de acompanhar – em seus mínimos detalhes – tudo o que acontece em uma partida de futebol, quando o Corinthians está em campo. Para isso, basta olhar para o banco de reservas do time. Ali, invariavelmente à beira do gramado, encontra-se Adenor Leonardo Bachi, o popular Tite. Enquanto a pelota rola, ele mimetiza tudo. Pula, grita, ri, lamenta, chuta, contorce os quadris como quem quer, incólume, deslizar pelo meio da zaga adversária, salta para cabecear uma bola hipotética (ele fez isso no gol do atacante Guerreiro, na final do Mundial de clubes, em 2012, contra o Chelsea) e comemora. Aliás, como comemora. Pois é aqui que se depreende a primeira característica do estilo de liderança do técnico vencedor do Brasileirão de 2015 – a emoção. “Muita emoção”, enfatiza o próprio Adenor Bachi.

Mas, claro, não é só isso. Tite tem mapeados três tipos de liderança. Ele as define como 1) a “democrática”, baseada em discussões (por vezes, exageradas) e consensos (não raro, impossíveis); 2) a “autoritária”, em que só o conhecimento de uma pessoa (ou a falta dele) se impõe; e 3) o que chama de “transformacional”, cujo princípio está no convencimento das pessoas. “É essa modalidade que pratico”, afirma. “Não acredito em imposições. O ser humano só aceita aquilo em que acredita ou é convencido a acreditar. Caso contrário, ele até executa uma tarefa, mas na primeira oportunidade deixa pra lá.”

Ocorre que convencer as pessoas, como se sabe, não é tarefa trivial. “Dá um baita trabalho”, diz o treinador. “Mas, uma vez que a gente consegue, a coisa pega, gruda.” Para persuadir os liderados, Tite, em grande medida, vale-se de duas ferramentas. A primeira delas é o conhecimento técnico (e cada vez mais científico) do jogo e de seus melindres. A segunda é o exemplo. “Se eu disser alguma coisa, tenho de cumprir”, afirma. “Caso contrário, ninguém vai acreditar em mim e a coisa toda desanda. O meu comportamento é fundamental.”

Não por acaso, termos como “transparência” e “lealdade” são comumente associados à liderança exercida pelo técnico. Isso não significa, contudo, que ele evite as encrencas que se fazem necessárias. Exemplo: dar uma bronca em um jogador. Mas, para isso, é preciso seguir alguns códigos. A primeira regra dos boleiros é não expor o problema de um jogador na mídia. “Em um primeiro momento, eu chamo o atleta para uma conversa tête-à-tête e, dependendo do problema, posso ser contundente”, afirma Tite. “Depois, faço o registro para o resto do grupo sobre aquela conversa, mas em outro tom.”

Tite adotou treinos mais curtos, mas intensos: eles reproduzem as situações reais de jogo, e colocam a equipe sob pressão psicológica (Foto: Luís Moura/WPP)

Gritar todos sabem
Uma bronca, contudo, pode não funcionar. O liderado, muitas vezes, precisa de orientação – o que é bem mais complicado. Afinal, esbravejar é algo que está ao alcance de qualquer garganta. Este ano, Tite viu o rendimento de um jogador – ele prefere não mencionar o nome (eis o código de ética dos boleiros em ação) – desabar no segundo semestre. O atleta foi para a reserva. Aí, como bom gaúcho, nascido em Caxias do Sul em maio de 1961 (tem 54 anos), o técnico aproveitou a chance para tutear. Ele disse ao comandado: “Tu não podes continuar assim. Teu nível está muito baixo”. Mas não ficou nisso. Foi preciso apontar o caminho para a volta do bom desempenho. “Eu disse que ele precisava elevar a dose de concentração nos treinos. E deu certo.”

Tudo isso faz com que Tite seja conhecido entre os torcedores por ter o “time na mão” – no vocabulário da bola, significa que ele controla o elenco. A equipe nem sequer muda o padrão de jogo, independentemente de quem está em campo. As peças, em geral, se encaixam no esquema com uma eficácia similar (lembre-se que os reservas do campeão brasileiro venceram os titulares do São Paulo por 6 a 1, em novembro). Essa uniformidade, uma razoável consonância de desempenho, não é somente fruto da liderança, mas esbarra nessa questão. “Ter um padrão tático forte é resultado da metodologia de treinamento”, diz Tite. “Mas eu tento dar condições de jogo para todos os atletas, e isso também é uma demonstração de respeito por eles.”

Outra peculiaridade do técnico é a inequívoca disposição para aprender (ele, na verdade, a define como “inquietude do saber”). Em 2014, consagradíssimo (vencera quase tudo entre 2011 e   2012: Brasileirão, Libertadores, Mundial…), ele decidiu se reciclar. Tirou um ano sabático. Desse período, o que mais o impressionou foi o contato com dois treinadores: o italiano Carlo Ancelotti e o argentino Carlos Bianchi. Ancelotti é um supercampeão. Dirigiu as constelações do Real Madrid, PSG, Milan, Chelsea, Juventus. Bianchi liderou equipes fortes como o Vélez Sársfield, Boca Juniors, Roma e PSG.

“Fico à beira do gramado, para ajudar os jogadores a manter o foco. De quebra, mostro para o juiz que estou ali. Ele não vai me prejudicar"

Ancelotti, à época dos contatos, dirigia o Real. Tite acompanhou cinco treinos da equipe madrilena, vários jogos, observou o tipo de suporte oferecido por profissionais de informática ao elenco e jantou duas vezes com o italiano. A principal lição que sobreveio desses encontros foi a importância da intensidade dos treinos. Ele aprendeu que vale muito mais uma hora de treinamento forte, competitivo, que de fato reproduza as condições reais de jogo do que ficar duas horas no nhe-nhe-nhem. “A ideia não é acertar o fundamento, o passe e coisas assim”, afirma Tite. “O fundamental é exercitar a tomada de decisões dos jogadores em situações que exigem alto nível de concentração e intensidade física.” Com os atletas sob forte pressão, o trabalho passa a ter um impacto psicológico. Isso os fortalece.

Foi isso o que Tite confirmou com Bianchi, no Boca. “Ele me disse que os jogadores brasileiros reagiam mal a qualquer provocação e saíam do jogo”, afirma. “Mas com o Corinthians não era bem assim. O nosso time era forte mentalmente.” Por isso, o técnico não cansa de exigir dos jogadores atenção total nas partidas. Não é por outro motivo que, muitas vezes, ele ocupa a lateral do campo com gritos que o deixam sem voz. “Digo para eles ficarem ligados na essência do jogo, na bola, no movimento dos companheiros”, conta. “Só assim eles vão conseguir reprogramar uma jogada, se isso for preciso.”

Jogadores do Corinthians comemoram título de 2015 e lançam Tite para o alto, após vitória contra o Vasco: uma união forjada com lealdade e transparência (Foto: Gustavo Serebrenick/Brazil Photo Press/Ag. O Globo)

“O técnico de vocês errou”
Tite também não tem melindres ao reconhecer erros. Quando faz uma bobagem, comenta com o grupo. Este ano, em uma partida contra o Coritiba, ele colocou o meia Danilo em campo no fim do segundo tempo. “Eu queria modificar a disposição do time”, diz. “Ocorre que era impossível fazer isso em tão pouco tempo. Esse tipo de mudança teria dado certo se fosse para neutralizar um adversário, mas não para alterar o modo de jogar.” Na ocasião, Tite chamou o elenco e disse: “O técnico de vocês errou”.

O treinador sabe ainda que nem sempre encontra uma resposta satisfatória para todos os entraves. Ele, em contrapartida, não se cansa de testar eventuais soluções. O jogador Rodriguinho, por exemplo, tem um bom nível técnico – passe, chute forte com os dois pés –, mas não se encaixava no esquema da equipe (4-1-4-1, no jargão dos gramados). Ele não funcionou jogando como uma espécie de atacante, nem como um meia (armando o jogo, no meio de campo). Quando começou a vir de trás (na posição de um segundo volante), acertou na mosca – e nos gols que fez contra a Ponte Preta e o Goiás. “Ele melhorou uma barbaridade”, afirma o técnico.

E o Tite na seleção brasileira? Bem, esse é um assunto sobre o qual ele se recusa a comentar – “por ética”. “Agora, estou curtindo um momento muito especial, com o título do campeonato brasileiro.” E ele pratica esse desfrute de maneira simples. Beberica um chimarrão com a esposa, saboreia um churrasco com a família ou vai ao cinema (gosta de policiais e comédias). Católico, também faz questão de frequentar igrejas. “Mas não rezo para vencer”, adverte. “É para ficar em paz comigo mesmo.” Tite, no entanto, sabe que o futebol brasileiro vive um momento difícil. Assim, ele torce para que o esporte seja mordido pelo bichinho da “inquietude do saber”. A partir daí, diz o técnico, a bola realmente vai rolar. 

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