Ameaça ao Tinder? Aplicativos de paquera segmentados fazem sucesso entre usuários

By | 11/06/2015
Augusto e Carinna se conheceram no Divino Amor (Foto: Arquivo pessoal)

A carioca Carinna Assis, de 21 anos, saiu da igreja no último dia 16 com um sonho realizado. Ela e Augusto Roberto, de 27 anos, casaram-se após dois anos e seis meses de namoro. A história não seria muito diferente do romance de qualquer outro casal — não fosse a maneira como os dois se conheceram. Carinna estava chateada com o término recente de seu noivado quando, decidida a não ficar mais sozinha, cadastrou-se no site Divino Amor, uma página de namoro exclusivamente destinada ao público evangélico. Foi onde conheceu o marido. Demorou seis meses até que se encontrassem pessoalmente primeira vez. Augusto deixou o emprego de padeiro no Guarujá (SP) para morar na cidade da mulher, onde agora trabalha na administração de um cemitério. Carinna nega ter ficado desconfiada por se tratar de um homem que conheceu online. A resistência veio da família. “Ninguém aceitou, mas, com o tempo, mostrando quem ele é, entenderam.” Segundo ela, ajudou o fato de o site ser segmentado. “Senti mais confiança.”

Carinna não é a única. Maior ferramenta de namoro evangélico do Brasil, o Divino Amor triplicou o número de novos cadastros mensais no último ano. Hoje, possui 1,9 milhão de usuários. A empresa diz receber, em média, de dois a três testemunhos de casamentos ou noivados por mês. Fundado em 2009, o site pertencente ao grupo Match.com, dono também do ParPerfeito e do gigante Tinder. “O que vimos foi o grande crescimento da comunidade evangélica no Brasil”, diz Gaël Deheneffe, presidente da empresa na América Latina. O site conta com a consultoria de um pastor para adequar o serviço. “Temos um cuidado especial com os detalhes. No ParPerfeito, você pode procurar um relacionamento casual ou declarar que busca apenas sexo. Não tem como isso acontecer em um site para a comunidade evangélica. Essas opções foram tiradas, assim como referências a álcool e bares.”

É um negócio lucrativo. O Divino Amor é o produto da Match.com que mais cresce no Brasil. Embora o cadastro seja grátis, é preciso pagar para poder iniciar conversas. Os valores mensais de assinatura variam entre R$ 19,99 e R$ 79,99. A empresa não revela quantas pessoas de fato contratam o serviço, mas diz receber em média 40 mil novos cadastros por mês. Mais da metade (61%) são mulheres. A faixa etária predominante é de 34 a 49 anos. Nos Estados Unidos, o grupo tem um braço voltado apenas para sites de nicho. “É um caminho para nós e estamos pensando em outros nichos para investir”, diz Deheneffe.

O modelo de negócios é o mesmo nas outras ferramentas da marca, o ParPerfeito e o G Encontro, para o público LGBT. “Achamos esse modelo importante. Traz até uma vantagem para o usuário: a assinatura é o melhor filtro para a qualidade da base de usuários. No momento em que você só consegue se comunicar com usuários pagantes, tem certeza que essa base é qualificada, está no site realmente para algo sério.” O único produto que difere do modelo é o Tinder, freemium. No caso dele, os usuários podem usar o app livremente. Deheneffe classifica o app como “uma revolução no mercado”, já que transformou a experiência de paquerar pelo celular mais leve, semelhante a um jogo. O Brasil é o segundo país que mais usa o Tinder — hoje, 5% dos brasileiros estão no aplicativo.

Kickoff: o Tinder do relacionamento sério (Foto: Divulgação)

Segmentados
O Divino Amor não é o único a se popularizar mirando um grupo religioso. O site Namoro Católico diz ter como objetivo “colaborar com Deus na formação de famílias santas” e nunca procurou investimento. Já entre os millennials da comunidade judaica, o app de paquera segmentado de maior sucesso é o JSwipe, com mais de 250 mil usuários em 70 países. Fora do núcleo religioso, a lista de segmentação não tem fim. Só o fotógrafo mineiro Maicon Santos, de 31 anos, criou 11. Amor de Peso, para pessoas com IMC acima de 30; Amor Normal, voltado a deficientes físicos; Amor VIP, para os sarados; e Namoro Estável, destinados a funcionários públicos, são alguns deles. O último, segundo o empreendedor, é o que faz mais sucesso — representa 70% do total de 14 mil usuários de todos os seus sites. A ideia é que um app não exclua o outro, mas que sejam complementares. “A maioria das pessoas que baixa um aplicativo vai fazer o download de pelo menos outros dois também”, diz Coley Cummiskey, CEO e fundador do Growlr, aplicativo de paquera para "ursos" (gays peludos e gordinhos). De acordo com ele, o Brasil é um dos países com a maior base de usuários.

Foi a segmentação que chamou a atenção da capixaba Suzana Corrêa, analista de marketing. Ela nunca tinha instalado um aplicativo de namoro até conhecer o Kickoff em fevereiro deste ano. A ferramenta, lançada em dezembro, mira quem quer relacionamentos sérios. “Você vê que o perfil das pessoas é diferente”, diz Suzana. Como o aplicativo ainda não havia sido lançado em Vitória (ES), ela visualizava perfis de outras cidades. Diferentemente de outras ferramentas, o Kickoff mostra somente dez perfis por dia para cada usuário, sempre amigos de amigos — o foco não está na quantidade, mas na qualidade dos pretendentes. Logo na primeira vez em que usou o app, Suzana encontrou o paulistano Luiz Carlos de Almeida, de 33 anos. A distância não foi um problema para eles. O relacionamento engatou e os dois já têm planos para se casar até junho de 2016. Agora, Suzana faz sua quarta viagem a São Paulo. Desta vez, para procurar emprego. “Temos registrado um crescimento explosivo”, diz Alanna Phelan, COO e cofundadora do Kickoff. Hoje, o aplicativo tem mais de 200 mil usuários e opera em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Neste Dia dos Namorados, expande para Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis. “Já temos mais de 5 milhões de mensagens enviadas com o app. Sabemos que as pessoas estão realmente usando, marcancado encontros e criando relacionamentos.”

Happn tem 3 milhões de usuários em todo o mundo (Foto: Divulgação)

Ficou curioso? 17 aplicativos de paquera para todos os gostos:

Coroa Metade, Amor de Idade: para usuários acima dos 40 anos
Kickoff: para quem quer um relacionamento sério. Só mostra amigos de amigos
G Encontros, Grindr: voltados ao público gay
Growlr: para gays “ursos” — rapazes peludos e gordinhos
Divino Amor, Namoro Católico, Amor de Fé, JSwipe: segmentados por religião
Namoro Estável: para funcionários públicos
The League: é considerado “o Tinder da elite”.  Você precisa ser aceito para entrar
Grouper: une grupos de solteiros que queiram conhecer outros grupos para encontros românticos coletivos
Happn: o usuário visualiza as pessoas com que cruza na rua
HighThere!: é o “Tinder" de quem fuma maconha
Tinder, ParPerfeito: são apps para todos os públicos. No primeiro, a faixa etária costuma ser mais baixa. O último é preferido pelos mais velhos

Revista Época Negócios